quinta-feira, 10 de julho de 2008

A ORIGEM DE "BOADELA"




A ORIGEM DE “BOADELA”


“Boadela”... há muito que o topónimo “Boadela” tem vindo a suscitar a curiosidade quanto à sua origem, sobretudo atendendo à similitude que apresenta com outras localidades do centro e sul do país (por exemplo, Adoadela cita em Amarante, ou Bobadela em Lisboa). Efectivamente a similitude dos vocábulos é inegável. Cabe indagar: terão alguma relação? Algum fundamento comum? Alguma característica, especificação que justifique? Vejamos a origem etimológica do vocábulo apresentado. José Pedro Machado ( in Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa) refere que num documento do ano de 954 verifica-se a grafia Abohadella, considerando que deve tratar-se da adaptação do nome próprio árabe abū ´abd allaH, «pai do servo de Deus». No entender do referido autor, a referida grafia terá estado na origem da forma “Bobadela”, que ocorre nas zonas de Amarante, Oliveira do Hospital, Chaves, Boticas, Loures, bem como na Galiza. José P. Machado relaciona também com este nome o vocábulo “Boabdil”, sendo este uma adaptação românica divergente, de origem andaluza, do nome do último rei mouro de Granada.

Afigura-se, deste modo, como sendo provável que este topónimo do Centro e do Norte de Portugal esteja ligado a um nome próprio árabe, o que não é de admirar, dada a importância das comunidades moçárabes no Centro de Portugal e as possíveis deslocações de população na extensa zona de fronteira cristã-muçulmana ao longo da Alta Idade Média. O facto de aparecer no Sul da Galiza também não é de estranhar, visto que a zona de Celanova compreende uma importante componente moçárabe do séc. X.

Posto isto, cabe, não obstante, perguntar se estamos realmente a lidar com um antropónimo árabe. Os que existem espalhados entre o Norte e o Centro de Portugal terminam em -e, evolução do -i do genitivo latino que era sufixado a esses antropónimos. Deste modo, será legítimo duvidar da filiação árabe do presente antropónimo.

No entanto, outra via de raciocínio se levanta. O topónimo “Boadela” terá procedido de “Bradella”, tendo assim, origem latina. “Bradella” é sinónimo de “pousada”, aponta para “lugar onde se pára ou onde se demora”, tendo, por via da evolução fonética culminado naquilo que é hoje.

Deste recuar às raízes etimológicas de “Boadela”, verificamos que qualquer que seja a sua origem etimológica ela está intimamente conectada com a sua origem histórica, de contrário, mais não seria do que vãs especulações acerca de nomenclatura antiga. Teremos que analisar os primórdios da aldeia em questão, para que a partir daí se infira a sua verdadeira origem.

As invasões muçulmanas em território nacional foram um facto, tendo início na Península no ano de 711, com o desembarque em Gibraltar de 12.000 berberes comandados por Tarik. No ano de 714 os invasores tomaram Santarém, Coimbra e Viseu, seguindo-se a rendição de Portucale (Porto), Braga, Tui e Lugo. Em 716, apenas cinco anos após a queda do último rei visigodo toda a península estava em poder dos muçulmanos. Não obstante, o domínio na península não foi pacífico, havendo uma primeira revolta contra a ocupação por volta de 722 quando um grupo de refugiados cristãos, escondidos nas montanhas das Astúrias (norte da península), venceu a batalha de Covadonga comandados por Pelágio, dando início à reconquista cristã. Os muçulmanos apenas foram erradicados de território nacional em 1249, sob o comando do rei D. Afonso III.

Porém, antes da presença sarracena, a Península Ibérica foi palco de uma outra invasão, a romana. Esta iniciou-se no contexto da Segunda Guerra Púnica (218 a.C.-201 a.C.), sob o comando do cônsul Cneio Cornélio Cipião. Entretanto, a ocupação da Península não foi pacífica. A partir de 194 a.C, registraram-se choques com tribos de nativos, denominados genericamente como Lusitanos, conflitos que se estenderam até 138 a.C., denominados por alguns autores como guerra lusitana. Nesse contexto, destaca-se um grupo de Lusitanos liderados por Viriato. A ocupação romana estendeu-se por toda a Península, conseguindo-se um domínio efectivo sobre as mais variadas zonas em virtude das vias de comunicação que foram construindo, bem como sobre outros meios de “romanização” que foram encetando.

Deste modo, apesar da presença muçulmana ter ocorrido, é possível que o topónimo “Boadela” tenha origem latina: “Bradella”, sendo sinónimo de “pousada”, de “lugar onde se pára ou onde se demora”. E esta solução afigura-se como sendo a mais credível por três ordens de argumentos: primo, cronológico, secundo, histórico-arquiológico, tercio, de razoabilidade prática.

Efectivamente, em termos cronológicos, a ocupação romana da Península precede a invasão sarracena, sendo que, a origem de Boadela enquanto povoamento castrejo, pré-romano, pode perfeitamente enquadrar-se antes da invasão muçulmana. Em segundo lugar, em virtude de escritos paroquiais, há dados que retratam o achado de moedas do período romano na referida aldeia, o que aponta, tendo em conta a sua localização e a consistência dos dados (o que pressupõe uma prévia análise crítica), para a existência de relações comerciais no referido lugar tendo por base a moeda. Tal ilação levar-nos-ia, certamente a crer, que a existência de Boadela, como aldeia, pequeno povoado, pequeno aglomerado, quiçá como pequeno castro. Pensa-se que Boadela teve a sua origem num pequeno Castro, pequeno aglomerado de casas (cujas ruínas ainda hoje é possível visitar), localizado num vale côncavo, abrigado das intempéries, e de características bastante rudimentares. A povoação aí existente dedicar-se-ia preferencialmente à pastorícia, localizava-se junto a um curso de água, e possuía um elevado índice recolector. Este seria o primórdio de Boadela enquanto povoação castreja, pré-romana. Todavia, com o advento da invasão romana, e posterior influência, a dita romanização, esta povoação terá evoluindo ao longo dos tempos. O achado das moedas romanas que data do séc. XIX, será um testemunho dessa influência, neste caso retractando um índice de economia de mercado, expoente da influência romana neste local.

Em terceiro lugar, teremos que atender a um argumento de razoabilidade prática, o qual se prende com a análise da relação que pode existir entre o significado de “Bradella” e a sua geomorfologia. “Pousada”, “lugar onde se pára ou onde se demora”, eis os sinónimos que surgem para o vocábulo latino Bradella. Actualmente, esta aldeia é uma como tantas outras que a circundam. Não obstante, o que fará dela a dita “pousada” de outrora? Situada num planalto, apesar de a sua origem ser numa parte abrigada, a Bradella poderá ter sido um ponto de passagem obrigatório das populações de antigamente. Há não muito tempo atrás, as pessoas que se deslocavam de Nordeste (cite-se a título exemplificativo, Cavês, Ribeira de Pena, Vila Pouca de Aguiar, ....) para Cabeceiras de Basto, ou para Braga, por motivos vários desde romarias, feiras periódicas, comércio, etc., atravessavam a Serra do Moledo, por uma calçada de pedra, no seu sopé deparavam-se com uma ponte de contornos rudimentares designada de Ponte das Boucinhas, subiam até à povoação, e, uma vez chegados ao Cruzeiro, desciam a encosta até Cabeceiras e demais possíveis destinos. Esta travessia findou por volta dos anos 70 como consequência da abertura de estradas nacionais, bem como abertura de outras vias. Certo é que Boadela era ponto de passagem para essas gentes, que durante séculos passaram ali, a pé, a cavalo, com gados, para romarias, para feiras regionais, para culto, para trabalhos sazonais, etc. Mas não só de Nordeste vinha o fluxo de passageiros. Também de Norte e Noroeste, afluíam gentes ao lugar de Boadela. As gentes do Alto Barroso que necessitavam de ir a Cabeceiras de Basto, a Braga, ao Porto, também nesses casos Boadela era ponto de passagem.

Se bem vistas as coisas, dir-se-ia que Boadela seria como um ponto óptimo no mapa dos fluxos (temporários ou não) que se fizeram durante grande parte do séc.XX. E se isso assim sucedia até à quase contemporaneidade, tudo indica que se fizesse desde tempos imemoriais. Seria inevitável que não surgisse a questão: terá sido a Bradella este ponto de passagem, o local onde se repousa, em tempos de ocupação romana? Terá tido a Bradella a função de elo de ligação no mundo romano? Terá sido a sua “geomorfologia estratégica" (de planalto), e a sua “localização óptima” (ponto de passagem das gentes para os diversos locais relevantes da altura) que terão ditado a sua designação: “Bradella”? Cremos que sim. Embora muitas questões permaneçam em aberto, crê-se que a origem do vocábulo Boadela se prende com a designação latina Bradella, advindo esta, possivelmente, do papel que este lugar teve durante o período de romanização, o qual, como já foi referido, manteve-se até quase até aos nossos dias. Quanto ao papel e reais contornos que a Bradella teve nesse período talvez nunca se chegue a saber na sua plenitude, porém, este legado patente na sua designação deixa-nos entrever o quão relevante foi, perdurando as suas jeiras até à contemporaneidade, fazendo jus ao velho brocado latino “todos os caminhos vão dar a Roma”.



D. Quixote de Boadela


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