segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
O ensino escolar no Estado Novo e os reflexos no mundo rural

A Reforma educativa de Carneiro Pacheco (1936-40) acarretou a fundação da Junta Nacional de Educação, criou-se a Mocidade Portuguesa; adaptou-se o livro único para cada classe do ensino primário; exigiu-se aos professores (assim como aos funcionários públicos) a assinatura de uma declaração anticomunista. Esta ultima reforma fora elaborada “com o duplo objectivo de assegurar a todos os portugueses um grau elementar de cultura, que os torne verdadeiramente úteis para si e para a colectividade, e de se dar enérgico e eficiente combate ao analfabetismo”. A educação tendia a transformar-se em instrução, um instrumento indispensável à modelação de cidadãos do regime.
Durante o Estado Novo, o sector educativo mais do que a função de educar, teve um papel maioritariamente instrutivo. Despertara-se a consciência de que o ensino se assume como um dos principais instrumentos de inculcação de valores, assim como de uma nova disciplina social. “O aumento da população escolar devia (...) funcionar como verdadeiro instrumento ideológico ao serviço dos objectivos do Estado Novo” (António Reis). Mais de que um veículo condutor dos ideais políticos do regime, os manuais escolares foram verdadeiros expoentes de conduta do homem português. Neste artigo, fazer-se-á referência à componente moral de que os manuais escolares.
Uma nova ideologia se divulgava, entre a exaltação da pátria (patriotismo); o nacionalismo através do contínuo louvor dos heróis do passado; sentido de respeito, uma ideologia tendente a inculcar valores morais. Através de fábulas, contos, exemplos, parábolas, um conjunto de valores que eram dignos do futuro homem português. O ser bom, o praticar boas acções, o ser estudioso, lealdade, responsabilidade, trabalho, honradez, poupança, respeito pela velhice, a exaltação da actividade agrícola, sentido de obediência, a honra da família (pai e mãe), caracter verdadeiro, tudo isto era “aprendido” pelos meninos na sala de aula sob a autoridade do professor.
Na verdade, trata-se de um conjunto de valores que essas crianças apreendiam desde muito cedo, os quais serviram de orientação para a sua vida, valores esses que não deveriam deixar de ser leccionados.
Daremos dois exemplos de textos retirados do Livro de Leitura – IV classe, 1948.
Uma Boa Acção
No fim de Outubro, quando o frio começa a anunciar a aproximação do Inverno, os habitantes do campo, principalmente os que são pobrezinhos, vão pelas matas e pelos pinhais apanhar s folhas e os ramos secos que se desprenderam das árvores, a fim de terem com que acender o lume no Inverno.
José, rapaz de doze anos, alto e forte para a sua idade, foi passear pelos pinhais num desses dias. Dentre as várias pessoas que apanhavam lenha, lobrigou ele uma velhinha dos seus setenta anos, que, muito a custo, juntou lenha e fez um molho, e que, ainda a custo, o pôs às costas para o levar para casa. A velha, alquebrada não só pelos anos, mas também pelos muitos desgostos que sofrera, metia dó
José foi ter com ela, pegou-lhe no molho e levou-lho a casa. A velhinha sensibilizada, agradeceu-lhe com voz trémula, e disse-lhe que essa boa acção lhe traria felicidade. José respondeu que ela não tinha nada a agradecer, que lhe tinham ensinado na escola a ajudar os mais fracos, e que não fizera mais do que o seu dever.
“Para sermos felizes devemos dar felicidade aos outros”.
(Livro de Leitura – IV classe, 1948, pág.5)
A agricultura
Todas as profissões são honrosas, quando exercidas conscientemente. Mas de todos os ramos de actividade humana nenhum é tão produtivo e útil como o da lavoura, não só porque é o meio dela que a terra se desentranha em frutos, mas também por ser uma colheita o prémio generoso e um trabalho feito com dedicação e amor.
A terra precisa de ser cortada, profundamente pela charrua, abundantemente adubada e limpa das ervas daninhas, que prejudicam as sementeiras.
Todo o esforço feito pelo homem, para obrigar a produzir a terra, não é uma tarefa de escravo, mas um trabalho útil, que será generosamente recompensado.
Amemos, pois, a terra, a nossa mãe amorável, que nos dá o mimo das suas flores, a riqueza dos seus frutos e que nos enche a alma de alegria e de reconhecimento.
“Semeia e cria, viverás com alegria”.
“Quem lavra e cria, oiro fia”.
(Livro de Leitura – IV classe, 1948, pág.71)
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Estatutos da Confradia de S. Marinha
Os Estatutos da Confradia do Santíssimo Sacramento da Igreja de Santa Marinha de Basto datam de 1723, e são fruto de um processo iniciado em 1718 pela comunidade dos Lugares da freguesia de Pedraça. É um processo formado por variados escritos e comunicações entre os fregueses e as competentes entidades eclesiásticas, e que culminou com a elaboração dos presentes estatutos. Entre os vários documentos consta uma escritura de doação e obrigação de 1718, na qual os fregueses (após se ter cultivado um olival com 30 pés de oliveira) se comprometeram a custear o sustento da lâmpada do Sacrário que pretendiam ter na sua Igreja, obrigação essa que, por escritura pública de 1723, voltaram a reiterar e alargar aos seus descendentes.O presente documento evidencia o labor e empenho da comunidade em ter na “sua Igreja o sagrado beatico pera acudir conelle aos enfermos, porquanto os Sacrarios circunvezinhos ficavam distantes, e semetia em meyo hum Rio que emmuitas o casioes impedia a passagem de sorte que se nam podiam valer delles, asim por nam poderempassar o Rio como também, estando o infermo mal, nam aver tempo de lhe hirem buscar o Beatico pela grande distancia do caminho, e por estas Rezoens queriam ter osacrario na dita sua Igreja pera acudir as necessidades precizas (...) ”. Os fregueses que subscreveram o presente documento advém do lugar de Boadela, Pedraça, Fondevila, Cima de Vila, Terrado, Paço, Vides, Vale, e Carrapata. É um testemunho verídico do comunitarismo presente nestas pessoas em pleno séc.XVIII em prol de um objectivo, e um documento de valor histórico inegável digno de referência.
Introduçam
A impulsos de devoção propria nos resolvemos a exigir esta Confradia s.ª Com os proventos della colocarmos o Sacramento na nossa Igreja, que se achava sem Sacrario p.ª ocorrer a indigencia dos enfermos, obra esta nascida da consideração deque p.ª a participação dos Rayos deste Divino Sol Christy in Eucharistia Sol nos faltava pera oculto o Rendimento. Vemos que o Sol pera a extripação das trebas discorre portodo o Orbe, e que Sô nós somos os Antipodas deste Divino Sol, Sentimos que sendo á nossa Igreja Caza de Deos Domus Mea não seja tambem caza do Sol, Se pois p.ª o material na prodigalidade de luzes que dispende illustra toda ahumana vegetação, Como sofreriamos vermonos privados dainfluentia do Sol Divino, pera nos verdadeira mente nascido Crietur vobis Sol e sera todos participavel lâ pos Christo o Seutrono no Sol P Salm. 28 InSole possuit tabernaculum Suum pera que não ficasse alguem inacessivel a Seus Divinos Rayos Nec est qui Se abscondat á calore ejus: do Rey da Persia dis Sam-João Chrisosth. Punha no Spaldar dô Seu tro Rayos de ouro que representavam hu Sol Serm i20 Ne Sint Homines Solis Resident infigura p.ª mostrar que ninguem havia deficar exempto da sua Superintendentia: Se pois p.ª aPayxam de Christo foi o amor detodos incentivo Cum dilexisset, bemhe nos façamos participantes deste mesmo amor no Sacramento Sacrimentum amoris, e Se Deos mandava a Moyses que amando o Seu Povo o metesse no Coração Num ii Porta eos in Sino tuo, nos que pertendemos Ser opovo do Coração da Quelle Sacramento, metendo-o no nosso p.ª ficarmos no Seu Ira me manet, et ego in illo. Não nos desconhecemos indignos de favor tam alto, mas Como o nosso designio tende ao louvor de Deos, que de nós assim como dos pequenos senão dignarâ de o receber Pslm.8. Exore infantium, et lactentium perfecista Laxdem, talves que a nossa vontade por sincéra, e grande ocuparâ a estimação de D.T. Sa foi a immulação de Izac Sô Sacrificio davontade de Abraham e porisso de grande apreço a DT. Verdade que testemunham as sagradas letras no Cap.22 do Genisis, e se pera a alatria do Sacramento forem os Cabedaes desta Confradia inSuficientes, supriram affectos faltas da grandeza, e aparvidade com que Cada Hum Concorrera p.ª adecençia do Culto Sebirâ pellos degraos da vontade aser grandeza, pois Senão prependa aoblação pella grandeza da dadiva, mas Sim pela ingencia do affecto, Como Cantou o Poeta gd.º disse Nom quantum dederis, Sede quanta mente dedisti Pensandum est placat victima parva Deum. La fazia Deos apreço da vontade com que Lhe ofereciam em holocausto apouquidade de hum cabritinho. Livit. Cap. 4 offerret hostiam Caza Domino Hyum de Capiy immaculatu, enão menos prezava o affecto de que lhe sacrificava alimitação de duas Rolas ou Pombas Livit. Cap.5 offerat duos turtures, aut duos pallos Columbarum Domino, eja que sem atenção â nossa indignidade Com larga mam nos Concede tantos favores emtoem em nossos labios Seus Louvores, e digamos com S. Ambros. e S. Agostin. Sancty, Sancty, Sancty.
Primeira mente haverâ Juis que superintenda, e governe em todas as couzas desta Confradia o qual hirâ combeca e vara as procissois acompanhamentos emais funções da Confradia.
Na eleição da pessoa p.ª Juis o Redº Parocho, com intervenção, e assestênçia do anno transado, tomarâ os votos, e aquelle emque concorrerem mais em numero serâ o Juis daquelle anno, e lerâ o Reverendo Parocho aperlação de primeiro votar, e depois delle Juis, e assim por ordem se hiram seguindo os officiaes do anno preterido, e se os votos em igual equilibrio em dous ou mais, o Reverendo Parocho terâ a faculdade de desempatar, e seram tomados em segredo, de sorte que não saiba o oovente, o emquem os ordros votaram, e esta mesma norma se terâ na elleição dos maes officiaes ag.m depois de elleitos pello sobredito modo darâ o Rdº Parocho ojuramento de como expedira bem e fiel mente as obrigações que lhe incumbem.
Haverâ coatro Mordomos p.ª o peditorio de Pam, vinho, carne, e azeite, e os proventos desta mendigação se entregarão ao Tezoureiro p.ª os vender em tempo concernente ao proveito da Confradia; o coal terâ ham das chaves do Archivo, ou Caixam que se mandarâ fazer p.ª Custodia dos bens e alfaias da Confradia, e outra chave tela-ha o Juis.
O Juis e o Tezoureiro acabado o anno dos seus cargos daram contas ao Juis novo que lhas tomarâ na assistençia do Rd.º Parocho dentro de hum mes desque os officiaes novos tomarem o juramento, e não as dando neste termo pagarão des tostões p.ª a Confradia, e Se deixarem passar dous mezes Sem dar as Contas pagaram dois mil Reis, e esta penna Se huâ dobrando pellos mezes que se passarem athe ao tempo das Contas, e desta penna Seiâ o Rd.º Parocho executador Severo.
Toda apessoa que quiser entrar no gremio desta Confradia darã deentrada seis vinteis, e de annal cincoenta Reis, eparticiparam de todos os suffragios da Confradia, e quando morrerem Selhe mandaram dizer Sinco pella Sua alma do dinheiro da Confradia, e hirã a Cnfradia acompanhar, e oque não for, ou mandar, Serâ condemnado noque ao Juis parecer.
Em todos os terceiros Domingos de cadames Se mandarâ dizer huã missa Rezada pellos bem feitores, e almas dos Irmãos, e em a Confradia tendo mais opullençia Serâ cantada.
No terceiro Domingo de Agosto se farâ a festa do Senhor, que constara de sermão, emissa cantada, e se adevoção dos officiaes os presuadir amayores jubilos, os farão aSua custa.
Se algua pessoa por Sua charidade der algua divida que Se lhe deva os officiaes da Confradia a aceitarão, e quebrarão pella via mais concernente dando ametade ao doador.
Sera acultura dos olivaes que os freguezes condonarão; a esta Confradia hira hua pessoa de cada caza da freguezia trabalhar no que for necess.º , preçedendo avizo do Juis, e apessoa que assim avizada nam for, ou mandar, nam tendo p.ª isso legitima excuzação Serâ Condemnada em Seis vinteis, q irremissivel mente Se executarâ.
Os freguezes concorrerão com o azeite necessario pera aAlampeda do Sacramento, em quanto os olivaes onão produzire em quantidade que baste, como também o seram obrigados atoda amais fabrica da Confradia; e todas as condemnações que Sefizerem por os freguezes não hirem âmissa, Clamores, e outras funções aque devem assestir Se aplicarão p.ª os dispendios da Confradia.
Sedem os freguezes abaixo assignados a V.ª Il.ma lhe confirme estes estatutos interpondo-lhe Sua authoridade, e dando licença pera porem o Sacrario que se querem obrigar assustentar de todo onecess.º, p.ª oque faram todos os termos necess.ºs.
ERM
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Serões da Província e o Conto

Em tempos não tão remotos quanto isso, quando se aproximava o Inverno as noites iam crescendo, tornando-se insuportáveis para a solidão. O Inverno na aldeia tem a peculiaridade de tornar os dias fugazes e as noites intermináveis, sobretudo quando não havia luminosidade suficiente para se ler um livro, e o advento da electricidade ainda permanecia longínquo.
Perante este cenário as famílias juntavam-se em torno da fogueira e da ténue luminosidade da candeia de petróleo, e aí passavam o que se chamava “o serão”. Não era unicamente a família que socializava neste aconchego, também quem vivia só, nestas longas noites, deslocava-se à casa dos seus vizinhos, às vezes ligados pelos laços do compradrio mútuo para juntos passarem mais rapidamente o tempo.
Os mais novos cediam os melhores lugares dos escanos aos anciãos e aos convidados, e após se acomodarem também começava a sessão... Desde o cerimonial da reza do rosário pelas famílias mais religiosas; temas banais da vida rural como futuras tarefas, meteorologia, luas, vendas de gado, marcações de lavouras; recomendações medicinais; o desígnio de casamentos; tudo era trazido à colação. Por vezes as mulheres fiavam lã, linho, faziam meia, aplicavam algum remendo, algum botão que não resistira à lide enquanto cavaqueira fluía. Os homens esses mantinham-se sentados, ora liam algum recorte de jornal à fraca luz, ora conversavam enquanto um adocicado fumo de cigarro amortalhado se elevava. Não obstante havia sempre um espaço reservado, um momento da noite em que o sagrado e o profano se cruzavam: o conto. E o conto encerrava em si o dom de transportar os seus ouvintes para uma realidade distante, uma realidade marcada por algumas similitudes com as suas vidas, mas definitivamente adornada por elementos do imaginário popular os quais nunca se teriam visto, mas eram uma constante. Tinham também a peculiaridade da intemporalidade, sendo transmitidos de geração em geração, adaptando-se à realidade provinciana (a qual poucas mutações sofrera).
Assim, também em Boadela, à semelhança do que sucedia um pouco por todo o mundo rural, o conto era uma figura que tinha lugar indiscutível nos serões de Inverno. Vejamos, agora, alguns exemplos de contos populares que se narravam numa casa da referida aldeia.
I
A TORRE DE BIBLONA (Versão da Torre da Má Hora)
Era uma vez, em tempos remotos, num reino cujo o nome hoje se ignora, a rainha deu à luz dois irmãos gémeos. Os tempos passaram, os gémeos foram crescendo, e quando chegaram à idade de dezoito anos decidiram levar à avante um sonho comum que sempre alentaram, desde tenra idade: dar a volta ao mundo. Para tal empresa deu-lhes o seu pai, o rei, dois magníficos cavalos, dois robustos e ferozes leões, respectivamente um para cada um, e duas exuberantes espadas. Munidos de tais prendas, achou o rei que os seus filhos estariam em condições de se defender de qualquer adversidade.
Certo dia, precisamente no dia em que comemoravam o seu décimo oitavo aniversário, enterraram um ramo de oliveira no chão. O primeiro, que tendo findado o percurso, isto é, tendo terminado a volta ao mundo, uma vez lá chegado, se a vara se mantivesse verde, saberia com certeza que o seu irmão estaria vivo, caso contrário a sua morte seria dado adquirido. Partiram nesse mesmo dia em direcções opostas.
O primeiro, que se passará a chamar por “o mais velho”, após várias milhas percorridas,m chegou a uma terra onde se instalaram um tumulto. Perguntou a uma mulher que, com as mãos atadas na cabeça, chorava. Tratava-se de um monstro que aterrorizava os aldeãos, uma cobra tricéfala que há anos que não abandonava a aldeia, e para cúmulo no dia anterior havia raptado a filha mais velha do rei daquele reino. Não havia volta a dar, os homens mais fortes e corajosos das redondezas já haviam tentado encetar um ataque contra tão temível criatura, porém sem resultado. Acometido por ímpeto de revolta, o cavaleiro puxou a rédea do seu cavalo e a trela do seu leão, perguntou: “diga-me, por quem é, onde se esconde esse monstro!!”. Correu de imediato para a caverna indicada, onde se iniciou o confronto entre este e a besta. Foi um confronto difícil, mas as peculiares armas (o leão a rasgar, o cavalo a trepar e a espada a cortar) permitiram ao gémeo vencer, esquartejando por completo a criatura tricéfala. Fora de si de felicidade por a sua filha estar a salvo, como recompensa pelo grandioso feito, perguntou o rei se era da sua vontade desposara sua filha em núpcias, que seriam as maiores que se viram nos reinos vizinhos. E assim foi, casou o irmão mais velho com a princesa daquele reino. Foram felizes durante anos a fio, tendo dois filhos, vivendo na pacatez do reino, esquecendo-se, inclusive, a existência do mostro terrível.
Os anos passaram, e o gémeo nunca mais regressou ao lugar de onde saíra naquele dia em que comemorara o seu décimo oitavo aniversário. A tranquilidade e o apaziguamento da vida familiar tinham tomado conta do seu ser, porém uma coisa apenas havia que mexia com a curiosidade: a Torre de Biblona. Era uma Torre construída em tempos imemoriais e cuja função se ignorava. Sabia-se apenas que lá vivia uma velha, aparentemente inofensiva, mas que quem entrasse lá não regressava. Era costume dizer-se “é a Torre de Biblona, quem lá vai, nunca mais cá torna”, e isso inquietava-o. Já havia manifestado à sua esposa a vontade de ir à referida Torre algumas vezes, porém nunca ela o deixara, dizendo para esquecer tal ideia, não valia a pena arriscar. Mas tantas vezes ouviu o mito da torre, que não resistiu mais. Certo dia, despediu-se da esposa, pegou no seu cavalo, no seu leão e espada e rumou ao destino. Intrigava-o a ideia de que havia algo que afligia grande parte da população e estava ao seu alcance resolver, afinal de contas conseguira destruir a cobra tricéfala, que outra criatura estaria na torre que não pudesse vencer? Seria difícil ser pior do que a criatura que vencera aquando a sua chegada ao reino.
A Torre em si era um aglomerado de pedra tosca, como tantas outras torres que preenchem o imaginário popular. Chegado lá, o gémeo bateu à porta, tendo esta sido aberta sozinha, sem recurso a nenhum meio humano aparente. Atravessou um hall medieval, ao fundo do qual estava uma velha.
− Então esta é a Torre de Biblona?! Que história é essa de que quem lá vai nunca mais cá torna? - disse o gémeo petulante.
− Ora, ora, ... vamos ter uma conversa primeiro, meu caro jovem... - disse a velha.
O jovem acedeu para ver no que aquilo ia dar.
− Ponha aqui o seu cavalinho. - Disse a velha oferecendo um dos seus cabelos.
Perante aquela atitude, o gémeo, um pouco em tom de chacota, acedeu prendendo com o cabelo, de nó cego, o seu cavalo.
− Prenda aqui o seu leãozinho, meu rapaz. - igualmente exibindo um grisalho cabelo, ao que o gémeo igualmente acedeu, dando um nó cego.
− E ponha aqui a sua espadinha. - O jovem também acedeu por último, prendendo a espada na parede.
Quando findou, a velha olhou para ele pela primeira vez nos olhos, e disse:
− E agora vamos a uma luta!!! Transforme-se os meus cabelos em gramalheiras de ferro!!!
E invocando tais palavras, os frágeis cabelos que prendiam o cavalo, o leão e a espada rapidamente se transformaram em robustos grilhões, tornando a sua remoção impraticável. A velha, dum aspecto frágil, debilitado pelos anos, transformou-se numa criatura demoníaca provida de uma força desmedida, em muito superior à do jovem. Facilmente derrotou o gémeo, empurrando-o para um alçapão onde dezenas de pessoas definhavam. Era uma caverna escura, funda, impossível de alcançar a porta do alçapão. Ali ficou o jovem, aterrorizado com o que vira, inconformado com a sua nova condição.
Quanto ao outro irmão, a sua viagem foi marcada por muitas aventuras, muitas peripécias, sem contudo se casar. Pretendia cumprir a promessa que fizera ao seu irmão. Passaram três anos deste a partida, uma vez concluída a sua “volta ao mundo” chegou ao local de partida junto ao ramo de oliveira. O ramo não estava seco, porém também não estava nas condições que estaria se nada se tivesse passado, adquirira uma estranha tonalidade púrpura, apesar de ainda não estar completamente seca. O que significaria? O irmão mais novo não soube bem como interpretar aquilo, porém uma certeza tinha, a de que ia ao encontro do seu irmão, para o bem ou para o mal. Dirigiu-se para o quadrante para onde vira o seu irmão mais velho partir há três anos atrás. Chegou ao reino onde anos antes havia chegado o irmão. A trote pelas ruas, começou a ouvir o nome do seu irmão, pessoas que se dirigiam a ele como se o conhecessem, o que era insólito, como podia tanta gente saber o nome do seu irmão, aclamando-o numa euforia colectiva. Deixou-se levar. No seu íntimo havia tomado a resolução de levar esta inofensiva farsa para saber o paradeiro do seu irmão. - Ai!, que ali vem o meu homem!- bradou uma bela mulher do alto de uma janela enquadrada numa abastada casa. Ainda meio aturdido pelo alvoroço com que era transportado, partiu o seu raciocínio de uma simples premissa: o que quer que tenha acontecido ao seu irmão, toda aquela gente pensava ser ele. Abriram-se as portas da imponente casa, de onde saiu uma jovem mulher em êxtase, banhada em lágrimas, à qual se juntaram um homem robusto, que pela fisionomia seria seu pai. E uma sagaz sequência de perguntas se seguiram, entre elas: “como conseguiste sair da Torre de Biblona? Porque demoraste dois meses lá? O que encontraste? Mora lá a velha? É tão abominável quanto dizem?”. Foi neste marasmo que o jovem começou a juntar as peças de um puzzel que pouco a pouco começava a fazer sentido. Durante o jantar, face às perguntas, respondia com respostas evasivas, abstractas como “não foi nada de mais”, ou “demorou mas nada que não se fizesse”, e, para finalizar disse que queria ir para a cama, pois urgia em descansar o corpo. Comunicou à “sua esposa” que no dia seguinte regressaria à Torre, tinha-se esquecido de uma coisa, mas que não se preocupasse. Porém, perguntou-lhe um caminho mais perto, é que da outra vez tinha demorado muito a chegar. Nessa mesma noite, em sinal de total respeito para com o irmão, colocou a sua espada ao meio da cama, para dividir fisicamente o corpo do da esposa do irmão. Atitude que de imediato a mulher estranhou, porém acatou pensando que era alguma sequela da ida à Torre.
Ao outro dia, seguiu o gémeo mais novo em direcção à malfadada Torre. No seu íntimo ia uma torrente de pensamentos, um deles se destacava: o último destino do seu irmão fora ali, e dali não saíra. Cabia-lhe a ele resgatá-lo e vinga-lo. Após ter batido à porta, esta abriu-se instantaneamente, sem que ninguém lhe tocasse. Entrou e encontrou a velha a esfregar as mãos com um óleo negro. - Ora, ora, então meu rapaz, tens um irmão gémeo, não tens? Vamos ter uma conversa. Para começar, prende o teu cavalinho neste meu cabelo. - e deu-lhe para a mão um fio de cabelo acinzentado com o qual prendeu o cavalo, todavia não dera nó cego, mas sim um subtil laço. O mesmo fez em relação ao leão que o acompanhava e à espada que sempre transportava consigo.
− E agora vamos a uma luta!! Transformem-se os meus cabelos em gramalheiras de ferro! - disse a velha, fazendo com que os cabelos débeis se enrobustecessem em ferro, e reassumindo uma forma não humana nunca até então vista pelo jovem. Porém, a agilidade do jovem e a astúcia que revelara ao dar os nós, permitiram-lhe facilmente libertar a espada, depois o cavalo e, finalmente, o leão. O confronto foi inglório para a velha, pois por mais que dominasse artes mágicas, a força e inteligência do jovem, conjuntamente com o trabalho dos seus aliados, faziam com que a derrota fosse algo difícil de conhecer. Findou com a vida da velha, cujo corpo inanimado se esfumou, desaparecendo sem qualquer rasto. Seguindo o ruído de vozes que clamavam por socorro, dirigiu-se ao alçapão, abriu-o, e, com a ajuda de uma escada, fez sair de lá dezenas de homens e mulheres que um dia caíram ali empurrados pela curiosidade. Entre eles estava o seu irmão.
O reencontro com ele foi algo repleto de emoção, um fraternal abraço que parecia não querer ter fim. O gémeo mais novo perguntou como veio ali parar; o mais velho como o conseguiu achar.
− Após ter terminado a viagem, cheguei ao sítio onde pusemos a vara de oliveira. Não estavas lá, ela não estava seca, mas também não estava totalmente verde, pelo que pude chegar à conclusão que corrias perigo.
− Oh, meu querido irmão, e viste-me dar a vida!!
− Depois cheguei aqui e toda a gente me recebeu como se me conhecessem, a tua mulher, sem nunca saber que era eu, contou-me a tua história ontem à noite, e hoje cá estou eu.
− Não contaste à minha mulher que não eras eu?? - Perguntou. - E dormiste com ela?
− Dormi na mesma cama, mas... - Já era tarde para finalizar. O gémeo mais velho movido pelo ciúme, que rapidamente se converteu em raiva cega, pegou na sua espada, de um só golpe, degolou o irmão. A cabeça de imediato rolou na poeira da estrada.
Trémulo, o gémeo mais velho regressou, sequer voltou a olhar para trás. A infâmia fora de tal ordem por parte daquela criatura que, mesmo que o tivesse furtado ao cativeiro, não merecia viver.
Em casa dele, muito estranhou a mulher o seu aspecto actual, de todo não parecia o homem que viera na noite anterior. Ele olhava-a com um certo despeito, mas acometia-lhe que ela não tivera culpa, ela não sabia de nada. Aquela infame é que maculou o seu santo lar, por isso não devia de ter sombra de arrependimento. Quanto à esposa, havia coisas que não podia compreender, e uma delas era os seus cabelos e barba longos, e outra era o facto de ter interposto a espada entre os seus corpos, assinalando uma linha divisória cortante entre eles. - Que nunca mais faças isso! Não tem jeito nenhum, estar eu sujeita a cortar-me naquilo!
− Que espada?? - questionou adivinhando a resposta e as consequências desta.
− Ora, não estejas com brincadeiras! A espada que puseste ontem a meio da cama!
O seu mundo desabara num ápice. Atónito, olhos esbugalhados, lívido... não podia acreditar... Matara o seu irmão por uma suspeita infundada, por uma traição que nunca chegou a existir! A maldade estava nele, dentro de si, e nunca naquele que o veio salvar e nunca faria nada para o ferir!! Desgraçado!!
Saiu, cavalgando o mais rápido que podia, será que ainda podia fazer alguma coisa? Ouvira em pequeno falar nuns “santos óleos”, óleos miraculosos que eram usados por curandeiros e endireitas, conseguiam repor o membro amputado e deixar o dono sem sequela alguma. Eram raríssimos, havia até quem duvidasse da sua existência, mas se os houvesse teriam de estar na Torre de Biblona! Aproximou-se, o cadáver do irmão jazia ali qual D. Sebastião mártir, tinha que agir rapidamente. Na Torre, a velha tinha uma espécie de laboratório de feitiçaria. Inúmeros frascos, invólucros com ervas, livros ancestrais, loções, porções, óleos. Num pequeno frasco, sob uma etiqueta quase ilegível, lia-se num dialecto já distante: óleo santo. Trémulo, pegou no frasco e levou-o para junto do irmão. Sabia que se queria que a porção tivesse o efeito pretendido, e restituísse a vida ao sei irmão, não podia errar ao colar a cabeça sob o pescoço, sob pena de ficar para sempre defeituoso. Assim fez, com extrema diligência colocou a cabeça sob o pescoço, e devido ao efeito do óleo, em segundos a matéria se uniu como se nunca tivesse sofrido um arranhão. Para finalizar, para restituir a vida ao seu irmão, administrou o remanescente do frasco pela boca do jovem. Rezou ferverosamente para que a vida regressasse novamente ao corpo do seu irmão. Rezou como a mãe lhe havia ensinado a rezar perante a adversidade. E tal foi a convicção empregue nas palavras sacras que proferia que viu a mão direita do jovem mexer. Depois o braço completo, e, seguidamente o outro. Os olhos abriram-se, a as pupilas convergiram, fixando um ponto. Fixou uma pequena borboleta que esvoaçava, rodou a cabeça e deu com o seu irmão de olhos marejados de água, mãos juntas, dedos entrelaçados, numa árdua prece. As palavras não lhe saiam, os pensamentos estavam confusos demais para discernir o que quer que fosse.
− Irmão? Onde estou? - indagou o gémeo mais novo com sinceridade.
− Por Deus!! Perdoa-me, meu querido irmão pelo mal que te fiz! Perdoa-me, que hoje sei de tudo o que fizeste por mim.
O jovem endireitou-se, olhou-o com beatitude como se aquelas palavras fossem a chave para a sua condição. - Como não houvera eu de te perdoar? És meu irmão e isso basta...Fizeste o que talvez eu teria feito no teu lugar, mas mostraste arrependimento e nobreza ao vires devolver-me a vida. - Ergueu-se.- Esqueçamos isso, estamos ambos perdoados.
O abraço fraterno abafou o mais que ainda havia para dizer, a emoção tomou conta do espaço deixado à racionalidade, e este foi o findar desta história, vivendo os protagonistas felizes para sempre.
Era uma vez, numa terra longínqua, um homem a quem os aldeãos chamavam “Zé dos Moinhos”. Vivia sozinho e a valentia era a sua insígnia. Dizia-se que o seu maior feito era levantar um moinho juntamente com mó, só num braço Por onde quer que passasse ajudava com o seu dom quem dela precisava. Ajudava as águas a tomarem o seu curso normal quando as intempéries inundavam os campos, ajudava a transportar gado quando caiam e não se podiam deslocar; o carregamento de pedras para casas era banal nos seus dias, bem como a sua colocação. Enfim, o Zé dos Moinhos era visto como uma mais valia por todos na aldeia. Porém, faltava-lhe algo. Sentia a inquietante curiosidade de saber que perigos o esperavam em outras aldeias, reinos. Tal curiosidade foi aumentando, aumentando, até se converter numa firme resolução: queria conhecer o mundo! Iria partir, iria ver, sentir, conhecer. Para além desta natural curiosidade pelo ignoto, havia algo que em especial o inquietava mais do que tudo: haveria outro homem cuja força igualasse a sua? Pior: haveria outro homem mais forte que ele? Essa possibilidade fazia-o recear.
Partiu com o seu alforge ao ombro, rumo ao destino, qualquer que fosse. Passou por vários povoados, porém, quase todos iguais, mudava uma ou outra coisa; paisagens que o faziam embevecer; tentaram-no assaltar por uma vez (tentativa essa mal agoirada); interferiu num linchamento público que faziam a um pequeno pastor cujo único crime fora pegar numa maçã; alcançou e trouxe à justiça um grupo de mercenários que queriam tirar a vida a um lavrador, etc. Porém, tudo isto lhe parecia trivial, não encontrara ainda adversário a altura, e começava a recear não encontrar.
Um dia, enquanto seguia por uma estrada, sentiu que já não era a primeira vez que circulava por ali. Saiu do trilho e foi dar a uns campos que estavam a ser lavrados por um homem de chapéu de abas largas agarrado ao arado que seguia atrás da imponente junta de bois. - Bom dia! Podia-me dizer como faço para ir em direcção ao lugar de Marafonda?
- Marafonda?! Ah! É fácil. - disse o lavrador passando as costas da mão na testa, retirando o excesso de suor. - Basta voltar ao caminho por onde seguia, ir em frente, ao chegar ao cruzamento vire à esquerda, depois quando avistar um carvalho enorme vira à direita, depois, mais à frente volte a virar à esquerda, depois novamente à direita, e finalmente, quando vir um fontanário, vire à esquerda, e está lá.
O Zé dos Moinhos estava estupefacto. Enquanto o lavrador dava as indicações levantava com o seu braço direito a enorme alfaia de ferro e os quatro bois de aproximadamente meia tonelada cada, movendo-os no sentido que proferia as orientações: esquerda, direita, frente. E fazia aquilo como se nada fosse, com uma naturalidade própria da veracidade. Afinal havia alguém que em força, pelo menos o igualava, quiçá até fosse mais forte. - Ouça lá, consegue erguer o arado e a junta de bois e ainda fala como se nada fosse?! Faz sempre isso?- ousou indagar Zé dos Moinhos.
- O meu nome é Zé dos Bois, desde pequeno fui criado com gado, e a minha proeza é levantá-lo deste modo.
- Eu sou o Zé dos Moinhos, e como o meu pai era moleiro, a minha proeza desde pequeno é levantar um moinho com mó e todo o seu recheio. - apresentou-se.
- E o que faz por estes lados, Zé dos Moinhos?
- Vim por esse mundo fora a ver se encontrava homem mais forte, ou pelo menos com força igual à minha. - confessou com a sua modéstia característica.
- Pois se é verdade o que diz, então encontrou-o, e está à sua frente. Há muito tempo que tenho andado a magicar no mesmo, em correr mundo e ver tudo o que ele tem para oferecer, mas nunca tinha tido coragem. Hoje chegou a minha vez, é hora de o pássaro sair do ninho.
Decididos a conhecer o mundo, rumaram os dois lado a lado, tendo como objectivo comum: ajudar quem precisa da sua ajuda.
Vaguearam dias e dias, meses. Chegavam a uma aldeia, “resolviam” alguns problemas e punham-se de novo a caminho. Até que um dia chegaram a uma aldeia em que na taberna se falava na “casa do Diabo”. Intrigados, os Zés olharam um para o outro com interrogação. Quiseram saber mais sobre a referida casa. Contou-lhes um velho lenhador que se tratava de uma casa desabitada, em que era assídua a presença do Diabo, e que aos audázes que se aventuraram a lá ir teriam acontecido coisas verdadeiramente horripilantes, e para alguns sequer chegaram a alcançar a sobrevivência. Ora, como não havia estalagem, pensão ou albergue na aldeia, seria mesmo para lá que o Zé dos Moinhos e o Zé dos Bois iriam passar a noite.
Embora a poeira e as teias de aranha típicas de uma casa desabitada, poder-se-ia dizer que estava perfeitamente adaptada para receber visitantes efémeros. O Zé dos Bois acendeu o lume com a lenha que estava ali acumulada junto ao escano, enquanto que o Zé dos Moinhos preparava a refeição que trazia no alforge. Estavam já instalados, recebendo o calor das chamas quando se ouviu entoar entre o estuque, provavelmente provindo do forro: “ai que frio!”. Era uma voz estridente, de troça, e ao mesmo tempo com um timbre tão volátil que parecia inumano. Zé dos Bois olhou para o Zé dos Moinhos com interrogação no olhar, ao que o segundo encolheu os ombros, fazendo uma feição despeitada. Novamente se ouviu: “ai que frio!”. Todavia, desta vez a exclamação fez-se acompanhar pela caída de um membro humano na mesa: caiu uma perna. O Zé dos Bois afastou-se num impulso. A sua força era conhecida, porém numa lidara com questões sobrenaturais, questões essas que naturalmente temia. O Zé dos Moinhos, pelo contrário, superado o susto inicial, era claro que teria de agir o que quer que aquilo fosse.
- Ai que frio! - entoou novamente a voz, e um flácido membro inferior caiu sobre a mesa.
- Cai p´ra aí que te leve o Diabo! - Disse Zé dos Moinhos com uma firmeza disfarçada, mas ciente que tinha de tomar uma atitude perante aquela situação. A premissa voltou a ouvir-se, e desta vez caiu sobre a mesa um braço. “Cai p´ra aí que te leve o Diabo”, foi a resposta dada uma vez mais. À terceira vez que se ouviu o prenúncio de frio, caiu o remanescente do corpo, que, por artes mágicas, se uniu aos membros já dispostos sobre a mesa. A figura que resultou da estranha junção era um misto de anão, corcunda, orelhas triangulares e uma palidez que se confundia com a luz esbatida da fogueira.
- Ora bem, quem são eles senão os valentes?- disse a figura com as mãos ou fosse lá o que fosse sobre a suposta cintura.
- Estamos aqui e aqui vamos pernoitar! - Desta vez era Zé dos Bois quem falava a quem a petulância daquela criatura havia suscitado raiva.
- Uhhh! Que medo! - troçou a criatura demoníaca.
- Eu sou o Zé dos Moinhos, e, sozinho, consigo levantar o moinho e a mó! Não vai ser um meio homem o que quer que sejas, que me vais vencer. - Virando-se para Zé dos Bois – peço-te que não interfiras pois eu sozinho dou cabo deste anão. - dirigiu-se para o adversário, que de um só golpe o imobilizou como se o matasse. Então, de seguida, foi a vez de Zé dos Bois fazer uma investida com toda a sua força, mas também esta saiu frustrada, pois facilmente o opositor reverteu a situação. A inconsciência tomou conta dos dois protagonistas.
Quando, com a alvorada, despertaram, aperceberam-se que tudo estava como no dia anterior. Não havia vestígios de membros amputados, nem de criaturas inumanas, apenas as reminiscências conjuntas do que se passara a noite anterior. Por maior que fosse a sua força física, tinham a plena consciência de que não era suficiente, era necessário nunca subestimar o inimigo e agir com diligência.
sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Gervásio de Andrade Bastos
Boadela fora o palco do nascimento de Gervásio de Andrade Bastos, algures no primeiro quartel do séc. XIX. A sua mãe, Tereza de Andrade, ficara viúva muito cedo e tivera de criar o pequeno Gervásio sozinha perante as dificuldades da época. Após a morte de Teresa, já adolescente, Gervásio fica na casa do seu padrinho de Baptismo, Manuel José Antunes, que então residia na Casa do Meio, e que viria a ser o primeiro presidente da Junta Freguesia de Pedraça.
A ânsia de uma vida melhor, e a sede de aventura, de um futuro incerto em que brilhavam os possíveis tesouros brasileiros, ditaram que Gervásio partisse para o Brasil. Assim, munido com pouco mais do que o necessário para embarcar, percorreu a cavalo durante dias a fio um Portugal que ainda não havia conhecido o progresso fontista, até chegar a Lisboa. De lá, partiu no Barco a vapor rumo a um destino ignoto, que se lhe afiguraria repleto de surpresas. A viagem, apesar de ter a duração de mais ou menos um mês, afigurara-se-lhe interminável. A superfície plana, de um azul intrépido parecia não ter fim, e eis que aquilo que até então fora uma determinação inabalável convertia-se agora no aflorar das primeiras dúvidas, nos primeiros receios.
Uma vez chegado lá, todo um novo mundo se lhe propunha diante os seus olhos, uma terra diferente, indígenas caricatos, pessoas de dialecto distinto, o qual não lhe fora de imediato perceptível. Vacilante, Gervásio mergulhou na multidão que bramia no alvoroço de um porto perdido no Atlântico, numa cidade cujo nome mal sabia pronunciar. Numa terra completamente desconhecida, habitada por uma miscelânea tão diferente da sua aconchegante aldeia natal, as reticências eram inevitáveis, o receio de que enveredara por uma escolha mal agoirada, pelo caminho da bifurcação que levara ao abismo. Várias terão sido as vertigens que assomaram ao jovem Gervásio, jovem sim, mas só, perdido do outro lado do Atlântico, a milhas do seu bucólico refúgio. Com o seu imaginário minado por contos populares, mitos de demónios, da existência de feitiçaria, da trivial luta entre o bem e Satan que faziam parte da cartilha provinciana, terá sido com espanto que viu a primeira pessoa de cor. Cogitaria certamente se tinha sido castigo divino uma pessoa nascer com tez negra, ou quiçá uma marca do rebanho de Belzebu. Enfim, por mais que se especule nunca se chegará a saber a abrangência da experiência de Gervásio, um jovem provindo de uma remota aldeia (onde tinha passado até então toda a sua vida) em pleno século XIX, num desembarque em solo brasileiro. O que é certo é que, por mais que as vacilações o tivessem pungido, Gervásio seguiu em frente. Agora que ali se encontrava, não iria voltar atrás.
Com pouco mais do que a roupa do corpo e um fole de cabra com os poucos (ou quase inexistentes) pertences imediatos, tratou de averiguar aos transeuntes que faziam a azáfama daquele desembarque portuário onde se podia dirigir a fim de encontrar trabalho que permitisse o seu sustento. As indicações que lhe foram dadas tendo por suporte o sotaque brasileiro não teriam sido compreensíveis de imediato, o que terá constituído certamente uma obstáculo que urgia em ser derrubado.
O seu percurso pelo Reino do Brasil, o seu destino primeiro, e subsequentes, é algo que não é possível precisar. A inexistência de documento escrito, e o facto de se perder nas brumas da memória dos vivos os poucos dados disponíveis, os quais assentam em exíguas reminiscências familiares, torna-se impossível proceder a um delinear de um possível “iter”. Sequer o local onde terá ocorrido o desembarque é conhecido, permanecendo este e os restantes destinos ignotos. Deste modo não serão avançadas especulações quiméricas acerca da sua estadia em Pernambuco ou Minas Gerais. Reportemo-nos aos factos conhecidos. Sobre este assunto cabe referir o facto de Gervásio ter tirado uma fotografia (uma extravagância para a época) a qual refere na parte inferior “BALDOMERO MOLÉS – PHOTO; Rio de Janeiro”, donde se pode retirar a inferência credível que terá estado na referida cidade, capital, então, do Reino. Outro facto que ainda hoje pode ser atestado trata-se dos baús que o nosso personagem trouxe para Portugal aquando a sua chegada, dos quais actualmente só resta um, e, no qual é referido numa etiqueta interior: “Rio de Janeiro”. Apesar destes dados terem o valor meramente indicativo, levam-nos a retirar a conclusão que quais quer que sejam os demais locais em que Gervásio esteve (se é que esteve noutros), certo é que esteve no Rio de Janeiro, na capital do Império. Quanto à actividade (ou actividades) desenvolvidas, também este é um dado que se perdeu nas malhas do tempo.
Esta aventura em solo brasileiro terá durado alguns anos, provavelmente não mais que 15. Durante esse período, Gervásio terá encarnado o ideário do “self made man”. Reuniu uma considerável soma, a qual lhe permitiu, uma vez chegado a Portugal, começar uma nova vida. Quando Gervásio entendeu que já possuía o suficiente para viver uma vida abastada regressou a Portugal. Quão deleitosa terá sido a viagem de regresso sob o azul atlântico... finalmente regressava.
Chegado a Boadela, definitivamente, já não era o mesmo rapazinho provinciano que havia partido à anos atrás, mas sim um homem “cosmopolita”. Os seus relatos faziam as delícias dos conterrâneos, os serões passaram a ser uma constante e cada dado novo do seu percurso era sorvido pelos presentes com interesse. As raparigas casadoiras disputavam-no para noivo, pois além de ser jovem e ter no seu curriculum a aventura em terras de Vera Cruz, corria o boato de que tinha regressado abastado. De facto, mal chegou, Gervásio tratou de comprar terras, as ditas lavouras, bem como de construir casa. No que se refere às terras comprou as Veigas, as Ribadas, e as Regadas. Quando a construção da sua casa findou, decidiu ser o momento adequado para contrair matrimónio. Conta-se que certo dia se dirigiu à Casa de Ponte de Pé, e pediu ao patriarca da família a mão da jovem Claudininha. Terá noivado, sendo que, após a boda, vieram viver para a nova casa em Boadela. Como descendência tiveram duas meninas, Emília e Elisa.
Quanto à data da sua morte, também esta não se sabe precisar, salientando que em 1910, por altura da realização de um Conselho de Família no sentido de se decidir a tutela da menor Natercinha (que ficara órfã), o nome de Gervásio Bastos viria a ser referido como sendo um dos intervenientes.
E assim ficou narrado, para que não se desvaneça das memórias dos vivos o que resta da história deste homem que um dia viveu em Boadela.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
António Feliciano de Castilho (1848) havia dito acerca dos terrenos incultos: "enquanto houver terras devoluto, a dar cardos e urzes em lugar de trigo e azeite (…) enquanto não repartirdes esses braços por essas terras, e essas terras por esses braços...”, evidenciando a preocupação que era premente nesta época.
Este pensamento fisiocrático-liberal levou à produção da mais diversa legislação sobre os baldios, toda ela apontando para a sua desintegração: divisão dos baldios pelos moradores vizinhos, e transferência da administração dos baldios indivisos para as Câmaras Municipais. Boadela não foi excepção.
O presente documento, intitula-se “Divisão dos Montes de Boadela”. Na verdade, trata-se de um compêndio esquematizado, integrado por quatro documentos, nos três primeiros consta a divisão de três montes que até então pertenciam à comunidade, sendo eles: o Monte do Moledo, o Monte do Crastro, e o Monte das Mangaretas, e, finalmente é integrado por um documento último intitulado “Relação dos Montes de Boadela” no qual contam os titulares das fraccções (e respectivas delimitações). Em relação a cada monte, a cada uma das suas fracções foi atribuído um número.
O manuscrito, revela-nos que esta magna divisio fora feita em classes, sendo considerados como possuidores de 1.ª classe os possuidores de uma sorte no Moledo, e três sortes no Crasto e Mangaretas respectivamente. Os possuidores de 2.ª classe são igualmente possuidores de uma sorte no Moledo, mas apenas duas sortes no Crasto e Mangaretas. No que se refere aos possuidores de 3.ª classe estes são detentores de apenas uma sorte quer no Moledo, Crasto, ou Mangaretas. Quanto ao critério que presidiu esta classificação, permanece desconhecido.
A data de elaboração do manuscrito em causa é incógnita, apresentando-se esta bastante rasurado, sujo, e alvo de constantes sobreposições, tendo pequenos trechos ilegíveis. Não obstante, especula-se que tenha ocorrido mais ou menos por meados do séc. XIX.
O documento em causa teve, e ainda tem, força de lei, consubstanciando os “usos e costumes” da comunidade, facto que transitou até à actualidade. Apesar de muitas das parcelas em causa terem evoluído para terrenos aráveis, integrando parcelas diferenciadas, ainda hoje é possível ouvir alguns habitantes de Boadela dizer que possuem uma sorte de mato na serra do Moledo, ou que têm uma “borda” nos “Crastos”.
Embora as mutações de propriedade (subjectiva e objectivamente) desde o séc. XIX até aos dias de hoje terem sido muitas, fica aqui o testemunho de uma divisão sui generis num contexto próprio que sobreviveu ao tempo e à memória.
Relação dos Montes de Boadela
| Titulares | Moledo | Crasto | Mangaretas |
| 1. Domingos Barroso Pereira | n.º 31 | n.º19,24,73 | n.º42,43,69 |
| 2. Manuel José Antunes | n.º 3 | n.º14,47,46 | n.º17,18,19 |
| 3. Narciso José Gonçalves | n.º21 | n.º1,49,50 | n.º61,63,62 |
| 4. António Baptista Pereira | n.º1 | n.º15,16 | n.º50,51 |
| 5. Manuel José Pereira | n.º5 | n.º21,62 | n.º34,35 |
| 6. Bento Gonçalves | n.º14 | n.º11,63 | n.º53,54 |
| 7. José Gonçalves (solteiro) | n.º39 | n.º17,28 | n.º72,14 |
| 8. Vicente de Campos | n.º29 | n.º3,55 | n.º11,58 |
| 9. Anna Vilella Pereira (viúva) | n.º52 | n.º45,64 | n.º8,9 |
| 10. Francisco Vilella Pereira | n.º6 | n.º10,54 | n.º5,70 |
| 11. Joaquim Henrique e irmão | n.º38 | n.º5,56 | n.º46,47 |
| 12. D. Roza Ricardina Tavares (viúva) | n.º28 | n.º7,26 | n.º24,29 |
| 13. Manuel Joaquim Alves | n.º54 | n.º60 | n.º66 |
| 14. Felicidade Martins | n.º13 | n.º30 | n.º41 |
| 15. João Carvalho | n.º10 | n.º42 | n.º7 |
| 16. Anna de Andrade | n.º35 | n.º52 | n.º2 |
| 17. Domingos Barrozo | n.º4 | n.º59 | n.º12 |
| 18. José Joaquim Esposto | n.º32 | n.º44 | n.º6 |
| 19. Domingos de Azevedo | n.º19 | n.º33 | n.º67 |
| 20. Maria Joaquina Alves | n.º20 | n.º36 | n.º1 |
| 21. Joaquim Fernandes Laijas | n.º37 | n.º61 | n.º28 |
| 22. Maria Vilela e irmão | n.º48 | n.º32 | n.º45 |
| 23. Joaquim Barrozo (solteiro) | n.º30 | n.º12 | n.º39 |
| 24. António Joaquim Gonçalves Buques | n.º9 | n.º29 | n.º71 |
| 25. Cândida de Magalhães (solteira) | n.º42 | n.º8 | n.º65 |
| 26. José de Souza (solteiro) | n.º23 | n.º23 | n.º44 |
| 27. Roza Galega Villanova | n.º40 | n.º57 | n.º13 |
| 28. Bento Gandarela | n.º7 | n.º43 | n.º16 |
| 29. Tereza de Andrade (solteira) | n.º22 | n.º40 | n.º43 |
| 30. Francisco José de Magalhães | n.º34 | n.º9 | n.º59 |
| 31. Angélica Gonçalves (solteira) | n.º33 | n.º51 | n.º64 |
| 32. Joaquina de Sousa e irmão | n.º24 | n.º27 | n.º32 |
| 33. João Alves | n.º25 | n.º15 | n.º60 |
| 34. Domingos Gonçalves | n.º55 | n.º58 | n.º49 |
| 35. José Leite | n.º43 | n.º48 | n.º15 |
| 36. Justina Alves | n.º44 | n.º2 | n.º37 |
| 37. Tereza de Andrade (viúva) | n.º49 | n.º67 | n.º3 |
| 38. José de Araújo | n.º45 | n.º41 | n.º10 |
| 39. Tereza Alves (da Ponte de Pé) | n.º8 | n.º70 | n.º30 |
| 40. Tereza Joaquina Alves | n.º51 | n.º34 | n.º31 |
| 41. José Gonçalves Pereira | n.º16 | n.º38 | n.º21 |
| 42. Maria Vilella Pereira (solteira) | n.º41 | n.º35 | n.º20 |
| 43. Anna Joaquina (viúva) | n.º17 | n.º22 | n.º26 |
| 44. António Leite | n.º12 | n.º68 | n.º57 |
| 45. José Barrozo | n.º27 | n.º31 | n.º23 |
| 46. Manoel Barrozo | n.º53 | n.º37 | n.º27 |
| 47. Joaquim de Magalhães | n.º11 | n.º71 | n.º68 |
| 48. Domingos Alves | n.º47 | n.º53 | n.º56 |
| 49. Costódio Teixeira | n.º15 | n.º66 | n.º38 |
| 50. José Barrozo Bouça | n.º18 | n.º39 | n.º22 |
| 51. Manoel Gonçalves | n.º56 | n.º4 | n.º48 |
| 52. Tereza Gonçalves | n.º50 | n.º65 | n.º40 |
| 53. Domingos Pereira Ramos | n.º2 | n.º6 | n.º25 |
| 54. Balthezar de Meirelles Leite | n.º36 | n.º20 | n.º4 |
| 55. João António Fernandes Bastos | n.º26 | n.º18 | n.º55 |
| 56. António Gonçalves Barroso | n.º57 | ____ | ____ |
| 57. Maria Alves Brazileira | ____ | n.º69 | n.º36 |
| 58. Tereza Vilella Buques | ____ | n.º72 | ___ |
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N.º54
N.º55
N.º56
N.º57
José Marques Correia Soares
Louvação daqui a dois dias: João Vilela Andrade
José Pereira Fernandes
CRASTO
N.º1
No sítio das Regadinhas. Nascente: 40m2 confrontam com a estrada pública que vai para Cavês; Poente; 40m2 confrontam com a tapada de Manuel Antunes; Norte: 140m2 confrontam com o n.º20; Sul: 140m2 confrontam com a tapada de Narciso José Gonçalves.
N.º2
N.º3
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N.º32
N.º33
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N.º37
N.º38
N.º39
N.º40
N.º41
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N.º44
N.º 45
N.º46
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N.º49
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N.º58
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N.º60
N.º61
N.º62
N.º63
N.º64
N.º65
N.º66
N.º67
N.º68
N.º69
N.º70
N.º71
N.º72
N.º73
João Pereira Fernandes
No sítio das Ribadas. Nascente: 60 m2 confronta com a tapada de Narciso José Gonçalves. Poente: 70 m2 confronta com a divisão de Pedraça; Norte: 60 m2 confronta com o n.º2; Sul: 57 m2 confronta com o caminho de Olteiro.
No sítio das Ribadas. Nascente: 60 m2 confrontam com a tapada de Narciso José Gonçalves; Poente: 60 m2 confrontam com a divisão de Pedraça; Norte: 60 m2 confrontam com o n.º3; Sul: 60 m2 confrontam com o n.º1.
No sítio das Ribadas (olival pertencente a João de Andrade). Nascente: 60 m2 confronta com a tapada de Narciso José Gonçalves; Poente: 68 m2 confronta com a divisão de Pedraça; Norte: 60 m2 confronta com o n.º4; Sul: 60 m2 confronta com o n.º2.
No sítio das Ribadas. Nascente: confronta com a tapada de Ballteses de Meirelles Leite. Poente: 60 m2 confronta com a divisão de Pedraça; Norte: 65 m2 confronta com o n.º5; Sul: 60 m2 confronta com o n.º3.
No sítio das Ribadas. Nascente: 60 m2 confronta com a propriedade de Francisco Laranjeira; Poente: 60 m2 confronta com a estrada que vai para o Arco; Norte: 76 m2 confrontam com a propriedade de Francisco Laranjeira; Sul: 65 m2 confronta com o n.º4.
No sítio da Felgueira. Nascente: 138 m2 confrontam com a estrada que vai para o Arco, Poente: 60 m2 confronta com o n.º7; Norte: 140 m2 confronta com a tapada de Manoel Pereira Marchante; Sul: 160 m2 confronta com a divisão de Pedraça.
No sítio da Bouça. Nascente: 132 m2 confronta com a tapada de Manoel Pereira do Arco e com a de Domingos Barroso; Poente: 132 m2 confronta com a divisão de Pedraça; Norte: Ponta Aguda; Sul: 60 m2 confronta com o n.º6.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 23 m2 confronta com a propriedade de Vicente de Campos; Poente: 80 m2 confrontam com a divisão de Pedraça; Norte: 52 m2 confrontam com o n.º10; Sul: 80 m2 confrontam com a propriedade de Vicente de Campos.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 40 m2 confronta com a propriedade de Vicente de Campos; Poente: 40 m2 confronta com a divisão de Pedraça; Norte: 55 m2 confronta com o n.º11; Sul: 52 m2 confronta com o n.º9.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 55 m2 confronta com a propriedade de Vicente de Campos; Poente: 30 m2 confronta com a divisão de Pedraça; Norte: 120 m2 confrontam com o n.º12; Sul: 155 m2 confrontam com o n.º10.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 25 m2 confronta com a tapada de José Gonçalves e com a propriedade de Manoel José Antunes; Poente: 25 m2 confronta com a divisão de Pedraça; Norte: 172 m2 confrontam com o n.º13; Sul: 120 m2 confrontam com o n.º11.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 25 m2 confrontam com a propriedade de Antunes; Poente: 25 m2 confronta com a divisão de Pedraça; Norte: 172 m2 confrontam com o n.º14, Sul: 172 m2 confrontam com o n.º12.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 20 m2 confronta com a tapada de Manoel Antunes; Poente: 20 m2 confronta com a divisão de Pedraça; Norte: 172 m2 confrontam com o n.º15; Sul: 172 m2 confrontam com o n.º13.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 20 m2 confronta com a tapada de Manoel Antunes; Poente: 20 m2 confronta com a divisão de Pedraça; Norte: 172 m2 confrontam com o n.º16; Sul: 172 m2 confrontam com o n.º14.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 20 m2 confrontam com Manoel Antunes; Poente: 20 m2 confrontam com a divisão de Pedraça; Norte: 172 m2 confrontam com o n.º18; Sul: 172 m2 confrontam com o n.º16.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 20 m2 confronta com a tapada de Manoel Antunes; Poente: 20 m2 confronta com a divisão de Pedraça; Norte: 172 m2 confronta com o n.º19; Sul: 172 m2 confronta com o n.º17.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 20 m2 confronta com a propriedade de Manoel Antunes, Poente: 20 m2 confronta com a divisão de Pedraça; Norte: 172 m2 confrontam com o n.º20, Sul: 172 m2 confrontam com o n.º18.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 20 m2 confronta com a tapada de Manoel Antunes; Poente: 20 m2 confronta com a tapada do Padre João Chacim; Norte: 170 m2 confronta com o n.º21, Sul: 170 m2 confrontam com o n.º19.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 20 m2 confronta com a propriedade de Manoel Antunes; Poente: 20 m2 confronta com a tapada do Padre João; Norte: 170 m2 confrontam com o n.º22; Sul: 170 m2 confrontam com o n.º20.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 10 m2 confronta com a tapada de Manoel Antunes; Poente: 40 m2 confrontam com a tapada do Padre João; Norte. 170 m2 confrontam com o n.º23; Sul: 170 m2 confrontam com o n.º21.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 10 m2 confronta com a tapada de Manoel Antunes; Poente: 40 m2 confronta com o padre João; Norte: 170 m2 confrontam com o n.º24; Sul: 170 m2 confrontam com o n.º22.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 10 m2 confronta com a tapada de Manoel Antunes; Poente: 40 m2 confrontam com a tapada do Padre João; Norte: 170 m2confrontam com o n.º25; Sul: 170 m2 confrontam com o n.º23.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 10 m2 confronta com a tapada de Manoel Antunes; Poente: 40 m2 confronta com a tapada do Padre João; Norte: 170 m2 confronta com o n.º26; Sul. 170 m2 confrontam com o n.º24.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 15 m2 confronta com a tapada de Manoel Antunes; Poente: 40 m2 confronta com a tapada do Padre João; Norte: 170 m2 confrontam com o n.º27; Sul. 170 m2 confrontam com o n.º25.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 10 m2 confronta com a propriedade de Manoel Antunes; Poente: 40 m2 confronta com a tapada do Padre João; Norte. 200 m2 confrontam com o n.º28; Sul: 180 m2 confrontam com o n.º26.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 20 m2 confronta com a tapada de Manoel Antunes; Poente: 15 m2 confronta com António José Carvalho; Norte: 200 m2 confrontam com o n.º29; Sul: 200 m2 confrontam com o n.º27.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 20 m2 confronta com a tapada de Manuel Antunes. Poente: 15 m2 confronta com a tapada de António José Carvalho; Norte: 200 m2 confrontam com o n.º30; Sul: 200 m2 confrontam com o n.º27.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 20 m2 confronta com a tapada de Manoel Antunes; Poente: 15 m2 confronta com a tapada de António José Carvalho; Norte: 200 m2 confrontam com o n.º31; Sul: 200 m2 confrontam com o n.º29.
No sítio de Cabeça de Silveira. Nascente: 20 m2 confronta com a tapada de Manoel Antunes; Poente: 15 m2 confronta com a tapada de António José Carvalho; Norte: 200 m2 confrontam com a propriedade de Manoel José Pereira Portella e com os n.º: 32, 33. Sul: 200 m2 confrontam com o n.º30.
No sítio das Mangaretas. Nascente: 100 m2 confronta com a tapada de Domingos Barroso; Poente: 120 m2 confronta com a tapada de Manoel José Pereira Portella; Norte: 25 m2 confronta com 33* , Sul: 25 m2 confrontam com o n.º31.
No sítio das Mangaretas. Nascente: 210 m2 confrontam com a tapada de Domingos Barroso; Poente: 15 m2 confronta com a tapada de Manoel José Pereira Portella; Norte: 138 m2 confronta com o n.º35; Sul: 25 m2 confronta com o n.º29*.
Nota do Tradutor:
Esta divisão encontra-se incompleta.
Lamenta-se qualquer imprecisão ou erro, justificando-se tendo em atenção ao mau estado de conservação do documento.
