segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
O ensino escolar no Estado Novo e os reflexos no mundo rural

A Reforma educativa de Carneiro Pacheco (1936-40) acarretou a fundação da Junta Nacional de Educação, criou-se a Mocidade Portuguesa; adaptou-se o livro único para cada classe do ensino primário; exigiu-se aos professores (assim como aos funcionários públicos) a assinatura de uma declaração anticomunista. Esta ultima reforma fora elaborada “com o duplo objectivo de assegurar a todos os portugueses um grau elementar de cultura, que os torne verdadeiramente úteis para si e para a colectividade, e de se dar enérgico e eficiente combate ao analfabetismo”. A educação tendia a transformar-se em instrução, um instrumento indispensável à modelação de cidadãos do regime.
Durante o Estado Novo, o sector educativo mais do que a função de educar, teve um papel maioritariamente instrutivo. Despertara-se a consciência de que o ensino se assume como um dos principais instrumentos de inculcação de valores, assim como de uma nova disciplina social. “O aumento da população escolar devia (...) funcionar como verdadeiro instrumento ideológico ao serviço dos objectivos do Estado Novo” (António Reis). Mais de que um veículo condutor dos ideais políticos do regime, os manuais escolares foram verdadeiros expoentes de conduta do homem português. Neste artigo, fazer-se-á referência à componente moral de que os manuais escolares.
Uma nova ideologia se divulgava, entre a exaltação da pátria (patriotismo); o nacionalismo através do contínuo louvor dos heróis do passado; sentido de respeito, uma ideologia tendente a inculcar valores morais. Através de fábulas, contos, exemplos, parábolas, um conjunto de valores que eram dignos do futuro homem português. O ser bom, o praticar boas acções, o ser estudioso, lealdade, responsabilidade, trabalho, honradez, poupança, respeito pela velhice, a exaltação da actividade agrícola, sentido de obediência, a honra da família (pai e mãe), caracter verdadeiro, tudo isto era “aprendido” pelos meninos na sala de aula sob a autoridade do professor.
Na verdade, trata-se de um conjunto de valores que essas crianças apreendiam desde muito cedo, os quais serviram de orientação para a sua vida, valores esses que não deveriam deixar de ser leccionados.
Daremos dois exemplos de textos retirados do Livro de Leitura – IV classe, 1948.
Uma Boa Acção
No fim de Outubro, quando o frio começa a anunciar a aproximação do Inverno, os habitantes do campo, principalmente os que são pobrezinhos, vão pelas matas e pelos pinhais apanhar s folhas e os ramos secos que se desprenderam das árvores, a fim de terem com que acender o lume no Inverno.
José, rapaz de doze anos, alto e forte para a sua idade, foi passear pelos pinhais num desses dias. Dentre as várias pessoas que apanhavam lenha, lobrigou ele uma velhinha dos seus setenta anos, que, muito a custo, juntou lenha e fez um molho, e que, ainda a custo, o pôs às costas para o levar para casa. A velha, alquebrada não só pelos anos, mas também pelos muitos desgostos que sofrera, metia dó
José foi ter com ela, pegou-lhe no molho e levou-lho a casa. A velhinha sensibilizada, agradeceu-lhe com voz trémula, e disse-lhe que essa boa acção lhe traria felicidade. José respondeu que ela não tinha nada a agradecer, que lhe tinham ensinado na escola a ajudar os mais fracos, e que não fizera mais do que o seu dever.
“Para sermos felizes devemos dar felicidade aos outros”.
(Livro de Leitura – IV classe, 1948, pág.5)
A agricultura
Todas as profissões são honrosas, quando exercidas conscientemente. Mas de todos os ramos de actividade humana nenhum é tão produtivo e útil como o da lavoura, não só porque é o meio dela que a terra se desentranha em frutos, mas também por ser uma colheita o prémio generoso e um trabalho feito com dedicação e amor.
A terra precisa de ser cortada, profundamente pela charrua, abundantemente adubada e limpa das ervas daninhas, que prejudicam as sementeiras.
Todo o esforço feito pelo homem, para obrigar a produzir a terra, não é uma tarefa de escravo, mas um trabalho útil, que será generosamente recompensado.
Amemos, pois, a terra, a nossa mãe amorável, que nos dá o mimo das suas flores, a riqueza dos seus frutos e que nos enche a alma de alegria e de reconhecimento.
“Semeia e cria, viverás com alegria”.
“Quem lavra e cria, oiro fia”.
(Livro de Leitura – IV classe, 1948, pág.71)
