
Em tempos não tão remotos quanto isso, quando se aproximava o Inverno as noites iam crescendo, tornando-se insuportáveis para a solidão. O Inverno na aldeia tem a peculiaridade de tornar os dias fugazes e as noites intermináveis, sobretudo quando não havia luminosidade suficiente para se ler um livro, e o advento da electricidade ainda permanecia longínquo.
Perante este cenário as famílias juntavam-se em torno da fogueira e da ténue luminosidade da candeia de petróleo, e aí passavam o que se chamava “o serão”. Não era unicamente a família que socializava neste aconchego, também quem vivia só, nestas longas noites, deslocava-se à casa dos seus vizinhos, às vezes ligados pelos laços do compradrio mútuo para juntos passarem mais rapidamente o tempo.
Os mais novos cediam os melhores lugares dos escanos aos anciãos e aos convidados, e após se acomodarem também começava a sessão... Desde o cerimonial da reza do rosário pelas famílias mais religiosas; temas banais da vida rural como futuras tarefas, meteorologia, luas, vendas de gado, marcações de lavouras; recomendações medicinais; o desígnio de casamentos; tudo era trazido à colação. Por vezes as mulheres fiavam lã, linho, faziam meia, aplicavam algum remendo, algum botão que não resistira à lide enquanto cavaqueira fluía. Os homens esses mantinham-se sentados, ora liam algum recorte de jornal à fraca luz, ora conversavam enquanto um adocicado fumo de cigarro amortalhado se elevava. Não obstante havia sempre um espaço reservado, um momento da noite em que o sagrado e o profano se cruzavam: o conto. E o conto encerrava em si o dom de transportar os seus ouvintes para uma realidade distante, uma realidade marcada por algumas similitudes com as suas vidas, mas definitivamente adornada por elementos do imaginário popular os quais nunca se teriam visto, mas eram uma constante. Tinham também a peculiaridade da intemporalidade, sendo transmitidos de geração em geração, adaptando-se à realidade provinciana (a qual poucas mutações sofrera).
Assim, também em Boadela, à semelhança do que sucedia um pouco por todo o mundo rural, o conto era uma figura que tinha lugar indiscutível nos serões de Inverno. Vejamos, agora, alguns exemplos de contos populares que se narravam numa casa da referida aldeia.
I
A TORRE DE BIBLONA (Versão da Torre da Má Hora)
Era uma vez, em tempos remotos, num reino cujo o nome hoje se ignora, a rainha deu à luz dois irmãos gémeos. Os tempos passaram, os gémeos foram crescendo, e quando chegaram à idade de dezoito anos decidiram levar à avante um sonho comum que sempre alentaram, desde tenra idade: dar a volta ao mundo. Para tal empresa deu-lhes o seu pai, o rei, dois magníficos cavalos, dois robustos e ferozes leões, respectivamente um para cada um, e duas exuberantes espadas. Munidos de tais prendas, achou o rei que os seus filhos estariam em condições de se defender de qualquer adversidade.
Certo dia, precisamente no dia em que comemoravam o seu décimo oitavo aniversário, enterraram um ramo de oliveira no chão. O primeiro, que tendo findado o percurso, isto é, tendo terminado a volta ao mundo, uma vez lá chegado, se a vara se mantivesse verde, saberia com certeza que o seu irmão estaria vivo, caso contrário a sua morte seria dado adquirido. Partiram nesse mesmo dia em direcções opostas.
O primeiro, que se passará a chamar por “o mais velho”, após várias milhas percorridas,m chegou a uma terra onde se instalaram um tumulto. Perguntou a uma mulher que, com as mãos atadas na cabeça, chorava. Tratava-se de um monstro que aterrorizava os aldeãos, uma cobra tricéfala que há anos que não abandonava a aldeia, e para cúmulo no dia anterior havia raptado a filha mais velha do rei daquele reino. Não havia volta a dar, os homens mais fortes e corajosos das redondezas já haviam tentado encetar um ataque contra tão temível criatura, porém sem resultado. Acometido por ímpeto de revolta, o cavaleiro puxou a rédea do seu cavalo e a trela do seu leão, perguntou: “diga-me, por quem é, onde se esconde esse monstro!!”. Correu de imediato para a caverna indicada, onde se iniciou o confronto entre este e a besta. Foi um confronto difícil, mas as peculiares armas (o leão a rasgar, o cavalo a trepar e a espada a cortar) permitiram ao gémeo vencer, esquartejando por completo a criatura tricéfala. Fora de si de felicidade por a sua filha estar a salvo, como recompensa pelo grandioso feito, perguntou o rei se era da sua vontade desposara sua filha em núpcias, que seriam as maiores que se viram nos reinos vizinhos. E assim foi, casou o irmão mais velho com a princesa daquele reino. Foram felizes durante anos a fio, tendo dois filhos, vivendo na pacatez do reino, esquecendo-se, inclusive, a existência do mostro terrível.
Os anos passaram, e o gémeo nunca mais regressou ao lugar de onde saíra naquele dia em que comemorara o seu décimo oitavo aniversário. A tranquilidade e o apaziguamento da vida familiar tinham tomado conta do seu ser, porém uma coisa apenas havia que mexia com a curiosidade: a Torre de Biblona. Era uma Torre construída em tempos imemoriais e cuja função se ignorava. Sabia-se apenas que lá vivia uma velha, aparentemente inofensiva, mas que quem entrasse lá não regressava. Era costume dizer-se “é a Torre de Biblona, quem lá vai, nunca mais cá torna”, e isso inquietava-o. Já havia manifestado à sua esposa a vontade de ir à referida Torre algumas vezes, porém nunca ela o deixara, dizendo para esquecer tal ideia, não valia a pena arriscar. Mas tantas vezes ouviu o mito da torre, que não resistiu mais. Certo dia, despediu-se da esposa, pegou no seu cavalo, no seu leão e espada e rumou ao destino. Intrigava-o a ideia de que havia algo que afligia grande parte da população e estava ao seu alcance resolver, afinal de contas conseguira destruir a cobra tricéfala, que outra criatura estaria na torre que não pudesse vencer? Seria difícil ser pior do que a criatura que vencera aquando a sua chegada ao reino.
A Torre em si era um aglomerado de pedra tosca, como tantas outras torres que preenchem o imaginário popular. Chegado lá, o gémeo bateu à porta, tendo esta sido aberta sozinha, sem recurso a nenhum meio humano aparente. Atravessou um hall medieval, ao fundo do qual estava uma velha.
− Então esta é a Torre de Biblona?! Que história é essa de que quem lá vai nunca mais cá torna? - disse o gémeo petulante.
− Ora, ora, ... vamos ter uma conversa primeiro, meu caro jovem... - disse a velha.
O jovem acedeu para ver no que aquilo ia dar.
− Ponha aqui o seu cavalinho. - Disse a velha oferecendo um dos seus cabelos.
Perante aquela atitude, o gémeo, um pouco em tom de chacota, acedeu prendendo com o cabelo, de nó cego, o seu cavalo.
− Prenda aqui o seu leãozinho, meu rapaz. - igualmente exibindo um grisalho cabelo, ao que o gémeo igualmente acedeu, dando um nó cego.
− E ponha aqui a sua espadinha. - O jovem também acedeu por último, prendendo a espada na parede.
Quando findou, a velha olhou para ele pela primeira vez nos olhos, e disse:
− E agora vamos a uma luta!!! Transforme-se os meus cabelos em gramalheiras de ferro!!!
E invocando tais palavras, os frágeis cabelos que prendiam o cavalo, o leão e a espada rapidamente se transformaram em robustos grilhões, tornando a sua remoção impraticável. A velha, dum aspecto frágil, debilitado pelos anos, transformou-se numa criatura demoníaca provida de uma força desmedida, em muito superior à do jovem. Facilmente derrotou o gémeo, empurrando-o para um alçapão onde dezenas de pessoas definhavam. Era uma caverna escura, funda, impossível de alcançar a porta do alçapão. Ali ficou o jovem, aterrorizado com o que vira, inconformado com a sua nova condição.
Quanto ao outro irmão, a sua viagem foi marcada por muitas aventuras, muitas peripécias, sem contudo se casar. Pretendia cumprir a promessa que fizera ao seu irmão. Passaram três anos deste a partida, uma vez concluída a sua “volta ao mundo” chegou ao local de partida junto ao ramo de oliveira. O ramo não estava seco, porém também não estava nas condições que estaria se nada se tivesse passado, adquirira uma estranha tonalidade púrpura, apesar de ainda não estar completamente seca. O que significaria? O irmão mais novo não soube bem como interpretar aquilo, porém uma certeza tinha, a de que ia ao encontro do seu irmão, para o bem ou para o mal. Dirigiu-se para o quadrante para onde vira o seu irmão mais velho partir há três anos atrás. Chegou ao reino onde anos antes havia chegado o irmão. A trote pelas ruas, começou a ouvir o nome do seu irmão, pessoas que se dirigiam a ele como se o conhecessem, o que era insólito, como podia tanta gente saber o nome do seu irmão, aclamando-o numa euforia colectiva. Deixou-se levar. No seu íntimo havia tomado a resolução de levar esta inofensiva farsa para saber o paradeiro do seu irmão. - Ai!, que ali vem o meu homem!- bradou uma bela mulher do alto de uma janela enquadrada numa abastada casa. Ainda meio aturdido pelo alvoroço com que era transportado, partiu o seu raciocínio de uma simples premissa: o que quer que tenha acontecido ao seu irmão, toda aquela gente pensava ser ele. Abriram-se as portas da imponente casa, de onde saiu uma jovem mulher em êxtase, banhada em lágrimas, à qual se juntaram um homem robusto, que pela fisionomia seria seu pai. E uma sagaz sequência de perguntas se seguiram, entre elas: “como conseguiste sair da Torre de Biblona? Porque demoraste dois meses lá? O que encontraste? Mora lá a velha? É tão abominável quanto dizem?”. Foi neste marasmo que o jovem começou a juntar as peças de um puzzel que pouco a pouco começava a fazer sentido. Durante o jantar, face às perguntas, respondia com respostas evasivas, abstractas como “não foi nada de mais”, ou “demorou mas nada que não se fizesse”, e, para finalizar disse que queria ir para a cama, pois urgia em descansar o corpo. Comunicou à “sua esposa” que no dia seguinte regressaria à Torre, tinha-se esquecido de uma coisa, mas que não se preocupasse. Porém, perguntou-lhe um caminho mais perto, é que da outra vez tinha demorado muito a chegar. Nessa mesma noite, em sinal de total respeito para com o irmão, colocou a sua espada ao meio da cama, para dividir fisicamente o corpo do da esposa do irmão. Atitude que de imediato a mulher estranhou, porém acatou pensando que era alguma sequela da ida à Torre.
Ao outro dia, seguiu o gémeo mais novo em direcção à malfadada Torre. No seu íntimo ia uma torrente de pensamentos, um deles se destacava: o último destino do seu irmão fora ali, e dali não saíra. Cabia-lhe a ele resgatá-lo e vinga-lo. Após ter batido à porta, esta abriu-se instantaneamente, sem que ninguém lhe tocasse. Entrou e encontrou a velha a esfregar as mãos com um óleo negro. - Ora, ora, então meu rapaz, tens um irmão gémeo, não tens? Vamos ter uma conversa. Para começar, prende o teu cavalinho neste meu cabelo. - e deu-lhe para a mão um fio de cabelo acinzentado com o qual prendeu o cavalo, todavia não dera nó cego, mas sim um subtil laço. O mesmo fez em relação ao leão que o acompanhava e à espada que sempre transportava consigo.
− E agora vamos a uma luta!! Transformem-se os meus cabelos em gramalheiras de ferro! - disse a velha, fazendo com que os cabelos débeis se enrobustecessem em ferro, e reassumindo uma forma não humana nunca até então vista pelo jovem. Porém, a agilidade do jovem e a astúcia que revelara ao dar os nós, permitiram-lhe facilmente libertar a espada, depois o cavalo e, finalmente, o leão. O confronto foi inglório para a velha, pois por mais que dominasse artes mágicas, a força e inteligência do jovem, conjuntamente com o trabalho dos seus aliados, faziam com que a derrota fosse algo difícil de conhecer. Findou com a vida da velha, cujo corpo inanimado se esfumou, desaparecendo sem qualquer rasto. Seguindo o ruído de vozes que clamavam por socorro, dirigiu-se ao alçapão, abriu-o, e, com a ajuda de uma escada, fez sair de lá dezenas de homens e mulheres que um dia caíram ali empurrados pela curiosidade. Entre eles estava o seu irmão.
O reencontro com ele foi algo repleto de emoção, um fraternal abraço que parecia não querer ter fim. O gémeo mais novo perguntou como veio ali parar; o mais velho como o conseguiu achar.
− Após ter terminado a viagem, cheguei ao sítio onde pusemos a vara de oliveira. Não estavas lá, ela não estava seca, mas também não estava totalmente verde, pelo que pude chegar à conclusão que corrias perigo.
− Oh, meu querido irmão, e viste-me dar a vida!!
− Depois cheguei aqui e toda a gente me recebeu como se me conhecessem, a tua mulher, sem nunca saber que era eu, contou-me a tua história ontem à noite, e hoje cá estou eu.
− Não contaste à minha mulher que não eras eu?? - Perguntou. - E dormiste com ela?
− Dormi na mesma cama, mas... - Já era tarde para finalizar. O gémeo mais velho movido pelo ciúme, que rapidamente se converteu em raiva cega, pegou na sua espada, de um só golpe, degolou o irmão. A cabeça de imediato rolou na poeira da estrada.
Trémulo, o gémeo mais velho regressou, sequer voltou a olhar para trás. A infâmia fora de tal ordem por parte daquela criatura que, mesmo que o tivesse furtado ao cativeiro, não merecia viver.
Em casa dele, muito estranhou a mulher o seu aspecto actual, de todo não parecia o homem que viera na noite anterior. Ele olhava-a com um certo despeito, mas acometia-lhe que ela não tivera culpa, ela não sabia de nada. Aquela infame é que maculou o seu santo lar, por isso não devia de ter sombra de arrependimento. Quanto à esposa, havia coisas que não podia compreender, e uma delas era os seus cabelos e barba longos, e outra era o facto de ter interposto a espada entre os seus corpos, assinalando uma linha divisória cortante entre eles. - Que nunca mais faças isso! Não tem jeito nenhum, estar eu sujeita a cortar-me naquilo!
− Que espada?? - questionou adivinhando a resposta e as consequências desta.
− Ora, não estejas com brincadeiras! A espada que puseste ontem a meio da cama!
O seu mundo desabara num ápice. Atónito, olhos esbugalhados, lívido... não podia acreditar... Matara o seu irmão por uma suspeita infundada, por uma traição que nunca chegou a existir! A maldade estava nele, dentro de si, e nunca naquele que o veio salvar e nunca faria nada para o ferir!! Desgraçado!!
Saiu, cavalgando o mais rápido que podia, será que ainda podia fazer alguma coisa? Ouvira em pequeno falar nuns “santos óleos”, óleos miraculosos que eram usados por curandeiros e endireitas, conseguiam repor o membro amputado e deixar o dono sem sequela alguma. Eram raríssimos, havia até quem duvidasse da sua existência, mas se os houvesse teriam de estar na Torre de Biblona! Aproximou-se, o cadáver do irmão jazia ali qual D. Sebastião mártir, tinha que agir rapidamente. Na Torre, a velha tinha uma espécie de laboratório de feitiçaria. Inúmeros frascos, invólucros com ervas, livros ancestrais, loções, porções, óleos. Num pequeno frasco, sob uma etiqueta quase ilegível, lia-se num dialecto já distante: óleo santo. Trémulo, pegou no frasco e levou-o para junto do irmão. Sabia que se queria que a porção tivesse o efeito pretendido, e restituísse a vida ao sei irmão, não podia errar ao colar a cabeça sob o pescoço, sob pena de ficar para sempre defeituoso. Assim fez, com extrema diligência colocou a cabeça sob o pescoço, e devido ao efeito do óleo, em segundos a matéria se uniu como se nunca tivesse sofrido um arranhão. Para finalizar, para restituir a vida ao seu irmão, administrou o remanescente do frasco pela boca do jovem. Rezou ferverosamente para que a vida regressasse novamente ao corpo do seu irmão. Rezou como a mãe lhe havia ensinado a rezar perante a adversidade. E tal foi a convicção empregue nas palavras sacras que proferia que viu a mão direita do jovem mexer. Depois o braço completo, e, seguidamente o outro. Os olhos abriram-se, a as pupilas convergiram, fixando um ponto. Fixou uma pequena borboleta que esvoaçava, rodou a cabeça e deu com o seu irmão de olhos marejados de água, mãos juntas, dedos entrelaçados, numa árdua prece. As palavras não lhe saiam, os pensamentos estavam confusos demais para discernir o que quer que fosse.
− Irmão? Onde estou? - indagou o gémeo mais novo com sinceridade.
− Por Deus!! Perdoa-me, meu querido irmão pelo mal que te fiz! Perdoa-me, que hoje sei de tudo o que fizeste por mim.
O jovem endireitou-se, olhou-o com beatitude como se aquelas palavras fossem a chave para a sua condição. - Como não houvera eu de te perdoar? És meu irmão e isso basta...Fizeste o que talvez eu teria feito no teu lugar, mas mostraste arrependimento e nobreza ao vires devolver-me a vida. - Ergueu-se.- Esqueçamos isso, estamos ambos perdoados.
O abraço fraterno abafou o mais que ainda havia para dizer, a emoção tomou conta do espaço deixado à racionalidade, e este foi o findar desta história, vivendo os protagonistas felizes para sempre.
Era uma vez, numa terra longínqua, um homem a quem os aldeãos chamavam “Zé dos Moinhos”. Vivia sozinho e a valentia era a sua insígnia. Dizia-se que o seu maior feito era levantar um moinho juntamente com mó, só num braço Por onde quer que passasse ajudava com o seu dom quem dela precisava. Ajudava as águas a tomarem o seu curso normal quando as intempéries inundavam os campos, ajudava a transportar gado quando caiam e não se podiam deslocar; o carregamento de pedras para casas era banal nos seus dias, bem como a sua colocação. Enfim, o Zé dos Moinhos era visto como uma mais valia por todos na aldeia. Porém, faltava-lhe algo. Sentia a inquietante curiosidade de saber que perigos o esperavam em outras aldeias, reinos. Tal curiosidade foi aumentando, aumentando, até se converter numa firme resolução: queria conhecer o mundo! Iria partir, iria ver, sentir, conhecer. Para além desta natural curiosidade pelo ignoto, havia algo que em especial o inquietava mais do que tudo: haveria outro homem cuja força igualasse a sua? Pior: haveria outro homem mais forte que ele? Essa possibilidade fazia-o recear.
Partiu com o seu alforge ao ombro, rumo ao destino, qualquer que fosse. Passou por vários povoados, porém, quase todos iguais, mudava uma ou outra coisa; paisagens que o faziam embevecer; tentaram-no assaltar por uma vez (tentativa essa mal agoirada); interferiu num linchamento público que faziam a um pequeno pastor cujo único crime fora pegar numa maçã; alcançou e trouxe à justiça um grupo de mercenários que queriam tirar a vida a um lavrador, etc. Porém, tudo isto lhe parecia trivial, não encontrara ainda adversário a altura, e começava a recear não encontrar.
Um dia, enquanto seguia por uma estrada, sentiu que já não era a primeira vez que circulava por ali. Saiu do trilho e foi dar a uns campos que estavam a ser lavrados por um homem de chapéu de abas largas agarrado ao arado que seguia atrás da imponente junta de bois. - Bom dia! Podia-me dizer como faço para ir em direcção ao lugar de Marafonda?
- Marafonda?! Ah! É fácil. - disse o lavrador passando as costas da mão na testa, retirando o excesso de suor. - Basta voltar ao caminho por onde seguia, ir em frente, ao chegar ao cruzamento vire à esquerda, depois quando avistar um carvalho enorme vira à direita, depois, mais à frente volte a virar à esquerda, depois novamente à direita, e finalmente, quando vir um fontanário, vire à esquerda, e está lá.
O Zé dos Moinhos estava estupefacto. Enquanto o lavrador dava as indicações levantava com o seu braço direito a enorme alfaia de ferro e os quatro bois de aproximadamente meia tonelada cada, movendo-os no sentido que proferia as orientações: esquerda, direita, frente. E fazia aquilo como se nada fosse, com uma naturalidade própria da veracidade. Afinal havia alguém que em força, pelo menos o igualava, quiçá até fosse mais forte. - Ouça lá, consegue erguer o arado e a junta de bois e ainda fala como se nada fosse?! Faz sempre isso?- ousou indagar Zé dos Moinhos.
- O meu nome é Zé dos Bois, desde pequeno fui criado com gado, e a minha proeza é levantá-lo deste modo.
- Eu sou o Zé dos Moinhos, e como o meu pai era moleiro, a minha proeza desde pequeno é levantar um moinho com mó e todo o seu recheio. - apresentou-se.
- E o que faz por estes lados, Zé dos Moinhos?
- Vim por esse mundo fora a ver se encontrava homem mais forte, ou pelo menos com força igual à minha. - confessou com a sua modéstia característica.
- Pois se é verdade o que diz, então encontrou-o, e está à sua frente. Há muito tempo que tenho andado a magicar no mesmo, em correr mundo e ver tudo o que ele tem para oferecer, mas nunca tinha tido coragem. Hoje chegou a minha vez, é hora de o pássaro sair do ninho.
Decididos a conhecer o mundo, rumaram os dois lado a lado, tendo como objectivo comum: ajudar quem precisa da sua ajuda.
Vaguearam dias e dias, meses. Chegavam a uma aldeia, “resolviam” alguns problemas e punham-se de novo a caminho. Até que um dia chegaram a uma aldeia em que na taberna se falava na “casa do Diabo”. Intrigados, os Zés olharam um para o outro com interrogação. Quiseram saber mais sobre a referida casa. Contou-lhes um velho lenhador que se tratava de uma casa desabitada, em que era assídua a presença do Diabo, e que aos audázes que se aventuraram a lá ir teriam acontecido coisas verdadeiramente horripilantes, e para alguns sequer chegaram a alcançar a sobrevivência. Ora, como não havia estalagem, pensão ou albergue na aldeia, seria mesmo para lá que o Zé dos Moinhos e o Zé dos Bois iriam passar a noite.
Embora a poeira e as teias de aranha típicas de uma casa desabitada, poder-se-ia dizer que estava perfeitamente adaptada para receber visitantes efémeros. O Zé dos Bois acendeu o lume com a lenha que estava ali acumulada junto ao escano, enquanto que o Zé dos Moinhos preparava a refeição que trazia no alforge. Estavam já instalados, recebendo o calor das chamas quando se ouviu entoar entre o estuque, provavelmente provindo do forro: “ai que frio!”. Era uma voz estridente, de troça, e ao mesmo tempo com um timbre tão volátil que parecia inumano. Zé dos Bois olhou para o Zé dos Moinhos com interrogação no olhar, ao que o segundo encolheu os ombros, fazendo uma feição despeitada. Novamente se ouviu: “ai que frio!”. Todavia, desta vez a exclamação fez-se acompanhar pela caída de um membro humano na mesa: caiu uma perna. O Zé dos Bois afastou-se num impulso. A sua força era conhecida, porém numa lidara com questões sobrenaturais, questões essas que naturalmente temia. O Zé dos Moinhos, pelo contrário, superado o susto inicial, era claro que teria de agir o que quer que aquilo fosse.
- Ai que frio! - entoou novamente a voz, e um flácido membro inferior caiu sobre a mesa.
- Cai p´ra aí que te leve o Diabo! - Disse Zé dos Moinhos com uma firmeza disfarçada, mas ciente que tinha de tomar uma atitude perante aquela situação. A premissa voltou a ouvir-se, e desta vez caiu sobre a mesa um braço. “Cai p´ra aí que te leve o Diabo”, foi a resposta dada uma vez mais. À terceira vez que se ouviu o prenúncio de frio, caiu o remanescente do corpo, que, por artes mágicas, se uniu aos membros já dispostos sobre a mesa. A figura que resultou da estranha junção era um misto de anão, corcunda, orelhas triangulares e uma palidez que se confundia com a luz esbatida da fogueira.
- Ora bem, quem são eles senão os valentes?- disse a figura com as mãos ou fosse lá o que fosse sobre a suposta cintura.
- Estamos aqui e aqui vamos pernoitar! - Desta vez era Zé dos Bois quem falava a quem a petulância daquela criatura havia suscitado raiva.
- Uhhh! Que medo! - troçou a criatura demoníaca.
- Eu sou o Zé dos Moinhos, e, sozinho, consigo levantar o moinho e a mó! Não vai ser um meio homem o que quer que sejas, que me vais vencer. - Virando-se para Zé dos Bois – peço-te que não interfiras pois eu sozinho dou cabo deste anão. - dirigiu-se para o adversário, que de um só golpe o imobilizou como se o matasse. Então, de seguida, foi a vez de Zé dos Bois fazer uma investida com toda a sua força, mas também esta saiu frustrada, pois facilmente o opositor reverteu a situação. A inconsciência tomou conta dos dois protagonistas.
Quando, com a alvorada, despertaram, aperceberam-se que tudo estava como no dia anterior. Não havia vestígios de membros amputados, nem de criaturas inumanas, apenas as reminiscências conjuntas do que se passara a noite anterior. Por maior que fosse a sua força física, tinham a plena consciência de que não era suficiente, era necessário nunca subestimar o inimigo e agir com diligência.

