sexta-feira, 5 de setembro de 2008



Gervásio de Andrade Bastos

 

 


Boadela fora o palco do nascimento de Gervásio de Andrade Bastos, algures no primeiro quartel do séc. XIX. A sua mãe, Tereza de Andrade, ficara viúva muito cedo e tivera de criar o pequeno Gervásio sozinha perante as dificuldades da época. Após a morte de Teresa, já adolescente, Gervásio fica na casa do seu padrinho de Baptismo, Manuel José Antunes, que então residia na Casa do Meio, e que viria a ser o primeiro presidente da Junta Freguesia de Pedraça.

A ânsia de uma vida melhor, e a sede de aventura, de um futuro incerto em que brilhavam os  possíveis tesouros brasileiros, ditaram que Gervásio partisse para o Brasil. Assim, munido com pouco mais do que o necessário para embarcar, percorreu a cavalo durante dias a fio um Portugal que ainda não havia conhecido o progresso fontista, até chegar a Lisboa. De lá, partiu no Barco a vapor rumo a um destino ignoto, que se lhe afiguraria repleto de surpresas. A viagem, apesar de ter a duração de mais ou menos um mês, afigurara-se-lhe interminável. A superfície plana, de um azul intrépido parecia não ter fim, e eis que aquilo que até então fora uma determinação inabalável convertia-se agora no aflorar das primeiras dúvidas, nos primeiros receios.

Uma vez chegado lá, todo um novo mundo se lhe propunha diante os seus olhos, uma terra diferente, indígenas caricatos, pessoas de dialecto distinto, o qual não lhe fora de imediato perceptível. Vacilante, Gervásio mergulhou na multidão que bramia no alvoroço de um porto perdido no Atlântico, numa cidade cujo nome mal sabia pronunciar. Numa  terra completamente desconhecida, habitada por uma miscelânea tão diferente da sua aconchegante aldeia natal, as reticências eram inevitáveis, o receio de que enveredara por uma escolha mal agoirada, pelo caminho da bifurcação que levara ao abismo. Várias terão sido as vertigens que assomaram ao jovem Gervásio, jovem sim, mas só, perdido do outro lado do Atlântico, a milhas do seu bucólico refúgio. Com o seu imaginário minado por contos populares, mitos de demónios, da existência de feitiçaria, da trivial luta entre o bem e Satan que faziam parte da cartilha provinciana, terá sido com espanto que viu a primeira pessoa de cor. Cogitaria certamente se tinha sido castigo divino uma pessoa nascer com tez negra, ou quiçá uma marca do rebanho de  Belzebu. Enfim, por mais que se especule nunca se chegará a saber a abrangência da experiência de Gervásio, um jovem provindo de uma remota aldeia (onde tinha passado até então toda a sua vida) em pleno século XIX, num desembarque em solo brasileiro. O que é certo é que, por mais que as vacilações o tivessem pungido, Gervásio seguiu em frente. Agora que ali se encontrava, não iria voltar atrás.

Com pouco mais do que a roupa do corpo e um fole de cabra com os poucos (ou quase inexistentes) pertences imediatos, tratou de averiguar aos transeuntes que faziam a azáfama daquele desembarque portuário onde se podia dirigir a fim de encontrar trabalho que permitisse o seu sustento. As indicações que lhe foram dadas tendo por suporte o sotaque brasileiro não teriam sido compreensíveis de imediato, o que terá constituído certamente uma obstáculo que urgia em ser derrubado.

O seu percurso pelo Reino do Brasil, o seu destino primeiro, e subsequentes, é algo que não é possível precisar. A inexistência de documento escrito, e o facto de se perder nas brumas da memória dos vivos os poucos dados disponíveis, os quais assentam em exíguas reminiscências familiares, torna-se impossível proceder a um delinear de um possível “iter”.  Sequer o local onde terá ocorrido o desembarque é conhecido, permanecendo este e os restantes destinos ignotos. Deste modo não serão avançadas especulações quiméricas acerca da sua estadia em Pernambuco ou Minas Gerais. Reportemo-nos aos factos conhecidos. Sobre este assunto cabe referir o facto de Gervásio ter tirado uma fotografia (uma extravagância para a época) a qual refere na parte inferior “BALDOMERO MOLÉS – PHOTO; Rio de Janeiro”, donde se pode retirar a inferência credível que terá estado na referida cidade, capital, então, do Reino. Outro facto que ainda hoje pode ser atestado trata-se dos baús que o nosso personagem trouxe para Portugal aquando a sua chegada, dos quais actualmente só resta um, e, no qual é referido numa etiqueta interior: “Rio de Janeiro”. Apesar destes dados terem o valor meramente indicativo, levam-nos a retirar a conclusão que quais quer que sejam os demais locais em que Gervásio esteve (se é que esteve noutros), certo é que esteve no Rio de Janeiro, na capital do Império. Quanto à actividade (ou actividades) desenvolvidas, também este é um dado que se perdeu nas malhas do tempo.

Esta aventura em solo brasileiro terá durado alguns anos, provavelmente não mais que 15. Durante esse período, Gervásio terá encarnado o ideário do “self made man”. Reuniu uma considerável soma, a qual lhe permitiu, uma vez chegado a Portugal, começar uma nova vida. Quando Gervásio entendeu que já possuía o suficiente para viver uma vida abastada regressou a Portugal. Quão deleitosa terá sido a viagem de regresso sob o azul atlântico... finalmente regressava.

Chegado a Boadela, definitivamente, já não era o mesmo rapazinho provinciano que havia partido à anos atrás, mas sim um homem “cosmopolita”. Os seus relatos faziam as delícias dos conterrâneos, os serões passaram a ser uma constante e cada dado novo do seu percurso era sorvido pelos presentes com interesse. As raparigas casadoiras disputavam-no para noivo, pois além de ser jovem e ter no seu curriculum a aventura em terras de Vera Cruz, corria o boato de que tinha regressado abastado. De facto, mal chegou, Gervásio tratou de comprar terras, as ditas lavouras, bem como de construir casa. No que se refere às terras comprou as Veigas, as Ribadas, e as Regadas. Quando a construção da sua casa findou, decidiu ser o momento adequado para contrair matrimónio. Conta-se que certo dia se dirigiu à Casa de Ponte de Pé, e pediu ao patriarca da família a mão da jovem Claudininha. Terá noivado, sendo que, após a boda, vieram viver para a nova casa em Boadela. Como descendência tiveram duas meninas, Emília e Elisa.

Quanto à data da sua morte, também esta não se sabe precisar, salientando que em 1910, por altura da realização de um Conselho de Família no sentido de se decidir a tutela da menor Natercinha (que ficara órfã), o nome de Gervásio Bastos viria a ser referido como sendo um dos intervenientes.

E assim ficou narrado, para que não se desvaneça das memórias dos vivos o que resta da história deste homem que um dia viveu em Boadela. 

1 comentário:

Anónimo disse...

gostaria de saber se as filhas de Gervasio de Andrade Bastos deixaram descendentes.

cris. abreu